29/03/2021

Altos níveis de metais / metaloides no sangue e urina de residentes de uma área afetada pela ruptura da barragem em Barra Longa, Brasil: Um estudo preliminar de biomonitoramento humano

Autores

Evangelina Vormittag, Paulo Saldiva, Andressa Anastacio, Fernando Barbosa Jr.

Artigo publicado no periódico internacional Environmental Toxicology and Pharmacology.

Descrição

No dia 5 de novembro de 2015, o Brasil experimentou o pior desastre ambiental associado a mineração, quando a barragem de rejeitos nomeada Fundão, operada pela mineradora Samarco, rompeu-se no rio Gualaxo do Norte, atingindo a cidade de Mariana no Estado de Minas Gerais, liberando aproximadamente 50 milhões de m3 de rejeitos de mineração de ferro. Em minutos, milhares de toneladas de lama atingiram e destruíram o distrito de Bento Rodrigues. No dia seguinte, a lama desaguou no Rio Carmo, alcançou o município de Barra Longa, onde destruiu moradias e plantações. Então, o intenso fluxo de lama correu a jusante do rio Doce e atingiu 40 cidades antes de chegar ao oceano. Todo esse processo teve impacto direto em 663,2 km de recursos hídricos, ceifou 19 vidas, deslocou milhares de famílias e deixou 11 toneladas de peixes mortos (Ibama, 2015; Justiça global, 2015)

O distrito de Barra Longa, que possui 5.720 habitantes, se destaca entre todos os municípios afetados pelo desastre ambiental, uma vez que suas áreas urbana e rural foram invadidas por lama tóxica e parte de sua população teve contato direto com ela. Além disso, a agricultura e a pecuária são as principais atividades econômicas da região. Parte da lama na cidade secou e o pó decorrente causou a contaminação do ar por material particulado a níveis altos semelhantes a grandes metrópoles ou polos industriais. Dessa forma, a população de Barra Longa foi uma das mais expostas à lama de rejeitos por diversas vias e por tempo prolongado, permanecendo em contato constante com o meio-ambiente degradado.

Em 2016, o Instituto de Saúde e Sustentabilidade, em parceria com o Greenpeace, realizou um estudo para verificar o estado de saúde na população de Barra Longa, cuja metodologia foi exploratória, transversal e descritiva baseada na aplicação de um questionário de saúde a 507 residentes do município.

No final desta pesquisa, devido aos resultados da sintomatologia referida pela população e seu adoecimento, 15 participantes foram convidados para coletar amostras de sangue para a pesquisa da presença de metais ou metalóides. Dos 15 convidados, apenas 11 aceitaram participar da coleta das amostras clínicas.

Métodos e resultados:

Objetivo: Este estudo teve como objetivo investigar os níveis de elementos químicos prejudiciais à saúde.

População de estudo: um grupo de 11 residentes na área afetada pelo desastre de mineração no distrito de Barra Longa, participantes do primeiro estudo de avaliação de saúde. A idade dos participantes variou de 2 a 92 anos; 63,6% (7) deles eram mulheres.

Análise das Amostras: As amostras clínicas foram submetidas à análise para investigar a presença de 9 metais: Alumínio (Al), Arsênio (As), Cádmio (Cd), Cobre (Cu), Chumbo (Pb), Manganês (Mn), Níquel (Ni), Selênio (Se) e Zinco (Zn).

Resultados

Todos os 11 participantes apresentaram níveis elevados de níquel no sangue, que variavam de 5,4 μg / L a 17,5 μg / L, três indivíduos mostraram níveis ligeiramente elevados de arsênio no sangue, que variavam de 2,4 μg / L a 4,7 μg / L e 10 participantes tiveram deficiência de zinco.

Um ano depois, em 12 de março de 2018, foram coletadas novamente amostras de sangue e também de urina para acompanhamento, dessa vez 10 dos 11 participantes aceitaram a segunda coleta.

Nove dos 10 participantes ainda apresentavam altos níveis de níquel no sangue, que variavam de 2,5 μg / L a 47,2 μg / L e todos os dez participantes apresentaram altos níveis de arsênio no sangue, variando de 6,12 μg / L a 10,40 μg / L. Além disso, a manifestação de sintomas de intoxicação clínica geralmente associada aos altos níveis de exposição ao arsênio foi observado neste grupo. Apenas um participante ainda apresentava deficiência de zinco.

Nesta nova rodada de coleta de amostras, as amostras de urina também foram coletadas de 8 dos 10 participantes e submetidas à análise focada na investigação da presença dos 9 elementos químicos: Al, As, Cd, Cu, Pb, Mn, Ni, Se e Zn. Todas as amostras apresentaram altos níveis de arsênio, variando de 12,3 μg / L a 54,2 μg / L ; da mesma forma, todas as amostras também apresentaram altos teores de cobre, que variou de 52,7 μg / L a 367 μg / L. Cinco participantes apresentaram altos níveis de níquel na urina, variando de 4,7 μg / L a 20,6 μg / L. Dois sujeitos apresentaram altos níveis de chumbo na urina, 6,7 μg / L e 9,4 μg / L.

Discussão

Depois do rompimento da barragem, alguns estudos foram realizados para investigar a extensão da contaminação do meio ambiente por elementos tóxicos. No entanto, até onde sabemos, este é o primeiro humano estudo de biomonitoramento em um grupo de residentes na área afetada pelos resíduos da barragem.

Várias perguntas ainda precisam ser respondidas para esclarecer os riscos de exposição e contaminação enfrentados pela população. As características desse estudo e seu tamanho de amostra (onze indivíduos) não permitem extrapolar conclusões de intoxicação para a população local como um todo, mas este estudo preliminar fornece evidências importantes dos riscos potenciais da população exposta a elementos tóxicos.

Desse modo, estudos adicionais devem ser realizados nesta região para levantar e confirmar hipóteses para ajudar a elucidar diversas dúvidas apontadas e também fornecer subsídios para ações das autoridades do setor público de saúde no Brasil.