Por Julia Affonso

A estrutura do nosso pensamento é linear, desde a própria formação da linguagem até a construção das nossas ações. Mesmo com existência da complexidade das relações humanas para a manutenção da vida, foi a partir dessa visão linear que a ciência se desenvolveu.

A fim de entender o mundo na sua forma mais completa, os cientistas desenvolveram suas pesquisas na perspectiva de Descartes, isto é, dividiram a natureza em partes e se aprofundaram na análise de cada uma delas – como a biologia, geografia, física, ciência política e o direito. Ao longo dos anos, essa abordagem reducionista transcendeu o campo da ciência atingindo outros domínios como as artes, a economia e a política, reproduzindo um pensar a sociedade de forma fragmentada que se tornou o modelo dominante e estruturador da arquitetura social.

Contudo, após a revolução tecnológica-informacional está cada vez mais claro que é impossível compreender o todo dessa forma. Impactada pelos efeitos da globalização, a contemporaneidade traz à tona um novo conceito de tempo e de comunicação que é sistêmico. Nele, tratar somente das partes não é o suficiente, uma vez que é ignorado tudo o que elas conectam e o que é conectado a elas – as relações que as permeiam.

Novas propriedades surgem das relações entre as partes, e o meio ambiente é um exemplo disso. Uma vez que é um conteúdo que está na fronteira de conhecimentos disciplinares, a temática ambiental possibilita a reflexão sobre o mundo por meio das dinâmicas que ocorrem nessa rede de relações.

O saber fracionado consagrado na ciência encontra hoje realidades, problemas e questões que são transversais, conformando um cenário de embate – motivo impulsionador de uma crise, no viver e pensar dessa sociedade. Neste sentido, a emergência da questão ambiental traz essa dimensão do todo, possibilitando sua inserção em nosso modelo cognitivo.

Portanto, o debate sobre a transformação da visão de mundo da sociedade é urgente só ocorrerá por meio de uma cultura contra hegemônica que rompa com as linhas cartesianas demarcadoras do mundo de antes, e que hoje permanecem constitutivas das relações excludentes do sistema mundial e subsistem estruturalmente no pensamento moderno ocidental dominante.

A crise que está instaurada é também uma crise do modelo cognitivo, e a ciência ambiental vem como instrumento essencial para a construção contínua da diversidade epistemológica de uma nova sociedade.