Desde sua invenção por Rudolf Diesel em 1893, os motores diesel, devido à alta eficiência (até 50% maior do que os propulsores a combustão interna a gasolina) e confiabilidade no serviço pesado, têm sido uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do transporte terrestre de carga e passageiros. Quase cem porcento dos veículos pesados usam esse combustível, que, seguramente, continuará sendo a tecnologia dominante no setor de transportes por muitos anos ainda.

Entretanto, as emissões desses motores, que se distinguem principalmente pela formação do material particulado (MP), têm sido objeto de cuidadosos estudos. Isso se deve à notável correlação entre a quantidade de partículas em suspensão no ar ambiente e o aumento de doenças e óbitos causados por problemas cardiovasculares e respiratórios, documentada, entre outros, por Dockery[1] em 1993 em um famoso estudo que correlaciona quase perfeitamente a causa (o MP) e seu efeito (a mortalidade).

Sabe-se que a maioria dessas partículas são tão pequenas, que não se pode vê-las, dado seu diâmetro da ordem de cem nanometro (cem milionésimo de milímetro). São formadas por um conjunto de substâncias sólidas e líquidas, cuja toxicidade e comportamento na atmosfera são diversos. As partículas sólidas formadas por carbono podem permanecer no ar por semanas. Seu tamanho nanométrico as faz inaláveis, chegar aos alvéolos ou à corrente sanguínea e persistentes no organismo – sem possibilidade de diluição em seus fluidos. Sua grande área (200 m2/g), as torna veículos eficientes para compostos orgânicos em fase líquida que aderem às suas paredes, tais como os nocivos hidrocarbonetos policíclicos e aromáticos (HPAs). Finalmente, sua cor negra lhes dá propriedade de efeito estufa mil e seiscentas vezes mais potente do que o dióxido de carbono (CO2)[2].

Assim, embora essas partículas sejam parte de um conjunto de substâncias definido como PM2.5 (partículas com diâmetro até 2,5 micron – ou até 2.500 nanometro), um recente estudo de Katsuyanni de 2012 lhes confere um impacto oito vezes maior na mortalidade do que aquele do próprio PM2.5. A isso, soma-se a evidência científica que coloca as emissões diesel na condição de cancerígeno de grau 1, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) – mesmo nível do asbesto (amianto), substância proibida em muitos países, incluídos o Chile e o Brasil.

Sem sombra de dúvida, não faria sentido para cidades latino-americanas embaladas neste vibrante dinamismo, proibir a tecnologia diesel; ao invés disso, cumpre-nos simplesmente eliminar o fator que, de fato, causa esse impacto na saúde pública: as nanopartículas. Atualmente, o estado da arte e o consenso no mundo científico, técnico e legislativo, indicam que a melhor tecnologia disponível para eliminar as nanopartículas é o filtro de partículas diesel (sigla do inglês, DPF). Se corretamente selecionados e instalados, os DPFs apresentam a impressionante eficiência de noventa e nove porcento. O que faltaria, então, para sua abrangente implementação?

Foi precisamente para enfrentar esse desafio, que a Agência Suíça para Cooperação e Desenvolvimento (COSUDE) criou um marco, com sua colaboração na implementação do projeto de filtros de partículas de Santiago do Chile, que agora equipam cincoenta porcento da frota de ônibus do sistema TranSantiago (cerca de três mil ônibus com filtros). Por sua vez, também num esforço conjunto com a COSUDE, a cidade de Bogotá na Colombia iniciou um programa piloto e criou requisitos para a utilização de filtros de partículas em cerca de dois mil ônibus do sistema TransMilenio. A Cidade do México também demonstra interesse em desenvolver uma iniciativa nesse sentido, em linha com suas prioridades ambientais e com as diretrizes do Prêmio Nobel Prof. Mario Molina, referentes às emissões diesel e o “carbono negro”.

Trata-se aqui, é certo, de uma prioridade para todas as mega-cidades latino-americanas que enfrentam essa urgência do desenvolvimento sustentável. Com a ajuda de iniciativas como o   programa Clima e Ar Limpo para Cidades da América Latina (CALAC), realizado pela COSUDE, começam a ser atendidas as necessidades das grandes cidades do nosso continente no âmbito da transferência de know-how e no apoio profissional para instalação dos filtros de partículas.



[1] “An Association Between Air Pollution and Mortality in Six U.S. Cities”, Dockery et Al, 1993.

[2] ICCT, 06/2009

 

Autor:

Aliosha Reinoso – engenheiro mecânico pela Universidade do Chile com vinte anos de experiência em tecnologias de controle de emissões veiculares e sua mitigação. Desenvolveu diversos programas em posição de liderança no Governo do Chile e em seguida, como consultor independente. Foi um dos responsáveis pelo Programa de Implementação de Filtros de Partículas Diesel (DPFs) em ônibus urbanos em Santiago de 2004 a 2009. Atualmente, trabalha em parceria com a Agência Suíça de Cooperação e Desenvolvimento (COSUDE) no programa “Clima e Ar Limpo em Cidades da América Latina” (CALAC), uma iniciativa para implementação massiva de filtros diesel.