A poluição química também está no ar, o que se tornou um dos problemas ambientais mais complexos e alarmantes da atualidade. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) revelam que, a cada ano, são registrados mais de 3,5 milhões mortes por doenças graves, inclusive diferentes tipos de câncer, provocadas pela emissão de gases poluentes nas regiões urbanas.

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) prevê que, se não forem adotadas medidas eficazes de combate à poluição, até 2050 a principal causa mortis, exceto doenças crônicas não evitáveis, estará relacionada a complicações cardiorrespiratórias, em razão da má qualidade do ar, agravada pela maior presença de material particulado e ozônio troposférico [1]. O resultado superaria as mortes por malária, poluição indoor, consumo de água insalubre e falta de saneamento básico.

[1] O ozônio presente na troposfera, a camada mais próxima da superfície terrestre, agrava problemas respiratórios e cardiovasculares. Já aquele localizado na estratosfera tem a função de absorver a radiação solar, impedindo que grande parte dos raios ultravioleta atinja a Terra.

Não bastasse isso, no Brasil falta mapear adequadamente o problema. O monitoramento é realizado em apenas 10 dos 27 estados [2], além do Distrito Federal, cobrindo 1,7% dos municípios. A qualidade das medições também é considerada distante da ideal, aponta o estudo Monitoramento da Qualidade do Ar no Brasil, divulgado em junho pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade (ISS). A publicação reúne dados disponíveis nos sites dos órgãos ambientais estaduais, 25 anos depois de instituído o Programa Nacional de Controle da Qualidade do Ar (Pronar), pela Resolução nº 5 do Conama, e de uma rede nacional básica de monitoramento, que, na prática, nunca se concretizou. “Conhecer bem a qualidade do ar é fundamental para manter níveis seguros de poluentes na atmosfera”, ressalta a médica e presidente do ISS, Evangelina Vormittag.

[2] Bahia, Espírito Santo, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo e Sergipe

Outra deficiência apontada pelo estudo são os parâmetros menos rígidos de tolerância. “A própria OMS planeja rever seus padrões [valores-guias], mas o Brasil ainda não adotou nem os antigos, de dez anos atrás”, diz Paulo Saldiva, médico e coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP. Um dos poluentes desconsiderados nas medições, em todo o País, é a partícula fina [3], relacionada a mortes precoces por doenças cardiovasculares, câncer de pulmão, aumento de doenças respiratórias em crianças e idosos, além do baixo peso de recém-nascidos.

[3] Menor que 2,5 milésimos de milímetros, presente na fuligem em suspensão

Para a OMS, o limite máximo na inalação de tais partículas é de 50 microgramas por metro cúbico de ar, mas, no caso de São Paulo, a Cetesb considera 120 microgramas. No relatório Emissões Veiculares no Estado de São Paulo – 2013, divulgado em outubro, a agência ambiental paulista informa que, apesar da queda nas emissões de veículos novos (com motores mais eficientes), o aumento da frota e os congestionamentos têm comprometido os ganhos obtidos pelos avanços tecnológicos, como a adoção de catalisadores. Além do tráfego intenso, a emissão de gases de efeito estufa também cresce pelo maior consumo de gasolina (em lugar do etanol) e diesel.

Depois de muitas disputas no setor, desde 1º de janeiro de 2013, os postos dos principais centros urbanos estão obrigados pela legislação a comercializar o diesel S10, cuja queima emite 10 partes por milhão (ppm) de enxofre, menos que o S50 (50 ppm). Ao contrário de países como o Japão, porém, nas rodovias brasileiras ainda se permite o uso do tipo mais poluente – o S500 –, que substituiu o S1800, a partir de janeiro de 2014.

Fonte Página 22