A empresa Ideia Sustentável, especializada em estratégia e inteligência em sustentabilidade, publicou na edição do mês de junho de sua revista Next , um estudo com seis tendências de sustentabilidade para eficiência energética e fontes renováveis, produto do Breakthrough Capitalism. Segundo a publicação, o conceito elaborado por John Elkington no livro The Zeronauts diz respeito às pressões sociais sofridas no mundo, capazes de nortear a agenda internacional.

As ondas sociais que conduzem ao Breakthrough podem ser diversas, mas as últimas, a partir do ano de 2010, trouxeram à tona o conceito de sustentabilidade. As tendências listadas abaixo abordam tanto responsabilidades civis como públicas, e mostram como a sustentabilidade pode ser atingida de diversas maneiras.

Para a matéria completa, leia a edição 39 da revista Next – Observatório de Tendências em Sustentabilidade.

1. Incentivos adequados e políticas eficazes
Para se tornar o quarto maior mercado do mundo em energia solar num curto período de tempo, a Alemanha partiu da premissa de que seria um feito impossível sem a reformulação de sua política de subsídios. Desde o ano de 2000, o governo oferece incentivos para quem instala painéis fotovoltaicos nas residências e a possibilidade de vender excedentes ao sistema elétrico. Em 2014, 50,6% de demanda de eletricidade no país chegaram a ser supridos pela fonte alternativa.

Em outras palavras, incentivos e políticas revelam-se determinantes para o sucesso de quaisquer iniciativas de promoção de fontes renováveis de energia, desde que apresentem planejamento de longo prazo, início, meio e fim. Além de vantagens para o meio ambiente, geram-se benefícios financeiros, devido à otimização de processos e à redução de desperdícios, por exemplo. Segundo a International Energy Agency (IEA), um dólar investido em eficiência pode significar uma economia de até três dólares daqui a 2015 com gastos de energia

Em suma, avançar de modo consistente e – por que não? – rápido em eficiência energética e no uso de fontes renováveis implica planejamento, regulação e políticas bem estruturadas. Alguns países já contam com importantes conquistas, enquanto outros ainda precisam dar muitos passos para expandir seus meios de produção de energia, gerar negócios, empregos, mercados e benefícios socioambientais.

2. Reconfiguração da matriz energética
As fontes fósseis ainda devem predominar na configuração global de energia, mas é impossível ignorar a força com que as renováveis têm conquistado espaço na matriz energética dos países nos últimos anos, reduzindo seus custos de implantação/uso e gerando milhões de empregos. Cada vez mais financeiramente viáveis e ambientalmente vantajosas, elas deixaram de ser uma possibilidade para se tornar uma necessidade.

Além de desempenharem um papel fundamental no enfrentamento das mudanças climáticas, as fontes renováveis diversificam a matriz energética e ampliam a segurança na geração de no fornecimento de energia. A efetiva transição para um modelo mais variado, ainda em estágio inicial, enfrenta dois grandes desafios: um de natureza tecnológica (as inovações exigem alto investimento) e outro institucional, que implicará planos de ação de países, mobilização de recursos e delegação de responsabilidades. Mesmo assim, há indicadores positivos.

Os números apresentam o progresso significativo das fontes renováveis, que representaram 9,1% da produção energética global em 2014 – valor 8,5% superior ao de 2013. Caso mantenha a taxa de crescimento atual, porém, o índice só alcançará os 20% em 2030. Em resumo, o balanço não é tão animador quanto parece.

A tendência é as energias renováveis elas cresçam em escala, enquanto caem os preços das tecnologias e aumenta consideravelmente a pressão sobre questões de mudanças climáticas. Dependerá, contudo, do senso de urgência dos tomadores de decisão – tanto no setor público como no privado – a eficácia da reconfiguração das matrizes de energia.

3. Identificação de focos de ineficiência
Diante do cenário atual de mudanças climáticas e escassez de recursos energéticos, é preciso mais do que restringir soluções à busca de fontes alternativas aos combustíveis fósseis: antes de qualquer iniciativa vem a redução dos focos de ineficiência, inclusive nos pontos finais do uso de energia, como carros, aparelhos eletrônicos e edifícios. De agora em diante, políticas, investimentos e inovações devem se pautar pelo princípio do uso mais racional possível.

Lançado em 2014, o relatório World Energy Investment Outlook: Factsheet Energy Efficiency (Perspectiva de Invesitmento Mundial em Energia:Informativo de Eficiência Energética) da International Energy Agency (IEA), conclui que investimentos em eficiência energética têm potencial para economizar US$ 18 trilhões até 2035. Ainda segundo o IEA, os investimentos em eficiência energética tendem a quadruplicar até 2035, atingindo US$ 550 bilhões por ano.

A promoção da eficiência energética depende de ações coordenadas, sistematizadas e contínuas, tanto públicas como privadas, que venham a produzir resultados econômicos e socioambientais, justificando, com números, a transição efetiva para um sistema de matrizes mais ecoeficientes e sustentáveis.

 4. Redes inteligentes de energia
Os smart grids não representam uma novidade em si, mas o modo como vêm evoluindo de ganhando escala consolida uma tendência irreversível. Há algum tempo já se discute a conexão desses conjuntos de tecnologias digitais ao sistema elétrico tradicional para monitorar, gerenciar e transportar eletricidade das fontes geradoras até os consumidores finais com máxima eficiência. Mas o que antes se debatia, agora se concretiza: a receita global do mercado de redes inteligentes apresentará rápido crescimento já a partir desde ano na Europa e, na América do Norte, deve se expandir em 80% até 2023, segundo dados da consultoria norte-americana Navigant Research.

O uso de smart grids assegura um amplo leque de possibilidades e oportunidades, desde a redução dos custos da energia e das emissões de CO2 (devido à adoção cada vez maior de fontes limpas como solar e eólica) à apropriação da rede pelos consumidores (residenciais, industriais e comerciais). Estes, aliás, com o uso de medidores inteligentes, saberão o quanto usam (e pagam pela) nergia, o que pode levar á extinção, por exemplo, do famoso “gato”, pois as tecnologias sinalizam imediatamente o local do roubo de eletricidade. No Brasil, a frase gera um prejuízo de R$ 15 bilhões, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL).

Com o público de interesse bastante amplo, incluindo empresas de energia elétrica, órgãos reguladores, fornecedores, clientes, poder público, instituições de pesquisa, agentes de desenvolvimento e financiadores, uma bem-sucedida experiência de redes inteligentes dependerá do envolvimento de todos esses atores das estratégias de implantação e manejo. Para tanto, faz-se necessário um planejamento com objetivos claros e metas tangíveis que assegurem uma evolução efetiva de smart grids.

5. Novas tecnologias sustentáveis
Os avanços tecnológicos dos últimos anos não ampliaram somente a variedade de fontes energéticas, mas também a possibilidade de superar um desafio mundial: suprir uma levada demanda por energia e reduzir impactos ambientais adotando formas de geração cada vez mais limpas e sustentáveis.

De um lado as tecnologias têm papel fundamental na produção de energia mais barata, comercialmente viável, facilmente distribuída e passível de ser utilizada de modo inteligente e conectada. De outro, frente a projeções pouco otimistas sobre o aquecimento global e suas consequências á biodiversidade e à qualidade de vida, permitem reduzir emissões de gases de efeito estuda e outros danos gerados pelos sistemas energéticos tradicionais.

Os benefícios de investimento em tecnologias de energia renovável podem vir tanto na forma de mitigação de impactos ambientais como na expansão de ganhos socioeconômicos, conforme demostra o relatório elaborado em 2014 pela International Renewable Energy Agency (IRENA – em português, Agência Internacional de Enegia Renovável), REthinking Energy – Towards a New Power System (Repensando Energia – Rumo a um Novo Sistema de Energia). Segundo o documento em 2013, 6,5 milhões de empregos foram criados em todo o mundo com foco em inovação para fontes mais sustentáveis.

Tecnologias com essas características são fundamentais para a produção limpa de energia, cada vez mais baseada em recursos renováveis. Porém, usá-las isoladamente não promove uma mudança efetiva, que exige trabalho conjunto de todas as partes interessadas – governo, cidadãos, financiadores, empresas privadas, agências internacionais – para potencializar os resultados da aplicação de inovações tecnológicas no longo prazo, rumo à transição para um sistema energético sustentável.

6. Educação para o consumo consciente de energia
Segundo dados do Balanço Energético Nacional de 2014, as indústrias consomem aproximadamente 34% da energia no Brasil, seguidas pelo transporte de cargas e mobilidade das pessoas (32%) e pelo próprio setor energético (10%). Considerando a pequena diferença percentual entre o primeiro e segundo grupos, impõe-se a necessidade tanto de constante inovação em produtos e processos mais eficientes quanto da educação de consumidores para o consumo adequado de energia. Educar, contudo, não significa apenas fornecer informações, e sim instruir, elucidar, promover mudanças de hábitos de compra e uso.

Quanto mais criativos os meios de educação do consumidor, melhores os seus efeitos. Aplicativos de celular que destaquem diferenças entre lâmpadas LED e fluorescentes, por exemplo, enumerando vantagens do produto mais sustentável e poupando as pessoas de realizar, elas mesmas, comparações e análises, podem servir como recurso educativo. Ajudam também aparelhos com design inovador que propicie um funcionamento mais eficiente, baseado nas condições do local de uso/instalação.

Os consumidores também são motivados a rever hábitos por meio de “jogos de competitividade”, como programas de acumulação de pontos e abatimentos na conta ou premiações para quem conseguir reduzir o uso de energia nos períodos de demanda mais elevada. Além disso, podem ser engajados por apelos públicos e políticas oficiais de eficiência energética, capazes de conscientizá-los e afetar significativamente seus comportamentos.

Empresas e governos são, afinal, responsáveis por educar consumidores, clientes e cidadãos, ampliando sua consciência sobre os benefícios e impactos do uso eficiente de energia. A conservação dos recursos energéticos, mais do que uma questão de prestígio de quem pratica, deve se tornar um dever cívico.