Segundo os dados do Centro de Pesquisas em Epidemiologia de Desastres, os desastres na região das Américas aumentaram consideravelmente nos últimos 40 anos. No período de 2000 a 2009 foram registrados 922, afetando cerca de 71 milhões de pessoas. No Brasil, a maioria dos desastres está relacionada com inundações, deslizamentos e seca prolongada. Segundo os dados da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, nos últimos 20 anos foram registrados 31.909 desastres em todo o país, afetando a vida de mais de 96 milhões de pessoas. Do total de eventos, 57,8% foram eventos climatológicos, predominando a seca e estiagem com mais da metade do total de vítimas. Os eventos hidrológicos, principalmente inundações bruscas e alagamentos, correspondem a 32,7% do total, com quase 39 milhões de afetados.

Em Mariana, Minas Gerais, especialistas apontam que o desastre causado pelo rompimento das barragens de rejeitos de minérios de ferro, em novembro de 2015, seja o maior desastre ambiental do Brasil. O desastre ocasionou a morte do Rio Doce, afetou sete comunidades e subdistritos do entorno, e como consequências, 19 mortes confirmadas, 329 famílias destituídas de suas residências e 11 toneladas de peixes mortos. Embora de extrema importância, as informações sobre as consequências observadas em saúde e ao atendimento à população são escassas, até mesmo pelos órgãos de saúde dos governos dos Estados, IBAMA/MMA e OMS. O derramamento dos rejeitos, ao menos causou o revolvimento e aumento da biodisponibilidade de uma série de componentes tóxicos, inclusive metais pesados – demonstrado por uma série de análises da água (pela Universidade Federal do Espírito Santo e outras entidades) em mais de um local e em diferentes períodos pós desastre. A exposição prolongada aos metais pesados pode levar ao prejuízo das funções neurológicas, pulmonar, hepática e renal e do sistema imunológico. Além disso, desastres ambientais trazem consigo substanciais efeitos sobre a saúde física, mental e social das populações atingidas no curto, médio e longo prazo, e de forma inter-relacionada, constituindo um grande desafio para os sistemas nacionais e locais de assistência e vigilância em saúde.

Diante desse cenário, a médica e pesquisadora Evangelina Vormittag propôs para edital público aberto pelo projeto Rio de Gente em parceria com o Greenpeace a pesquisa “Avaliação dos riscos em saúde da população afetada pelo desastre de Mariana”. O edital recebeu mais de cinquenta projetos e selecionou seis propostas que receberão, cada uma, entre R$40 e R$70 mil, e terão seis meses para serem realizadas –saiba mais.

Entre as seis aprovadas, está a pesquisa de Evangelina Vormittag, que propõe realizar um estudo exploratório transversal e descritivo a partir de um questionário estruturado a ser aplicado à população das comunidades atingidas pelo rompimento da barragem e profissionais de saúde e da área social que atuam diretamente com essa população. A proposta é ouvir as necessidades e demandas de todos os envolvidos, a fim de que a resposta à tragédia tenha mais chances de encontrar consenso e produzir o melhor resultado. O intuito dessa abordagem, portanto, é identificar, por auto-avaliação, as percepções das famílias e profissionais quanto aos efeitos na saúde física e mental, cobertura de assistência em saúde e ao atendimento às suas necessidades que lhes garantam a saúde e bem-estar, incluindo outras questões tais como vigilância, prevenção de doenças e saneamento.

Evangelina Vormittag é médica patologista clínica e microbiologista com Doutorado em Patologia, ambos pela Faculdade de Medicina da USP. É também fundadora e diretora presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade. A equipe da pesquisa será composta também por Cristina Guimarães Rodrigues, demógrafa na área de saúde.

Os resultados poderão orientar ações e auxiliar os tomadores de decisão sobre as oportunidades, o grau e a magnitude dos prováveis riscos para a saúde, atribuíveis ou não ao desastre, e direcionar suas escolhas sobre políticas e programas prioritários para reduzir os danos, prevenir e reduzir a gravidade das repercussões futuras. Os desastres evidenciam as condições latentes de vulnerabilidade socioambiental que se encontram relacionadas às desigualdades sociais, econômicas e ambientais, as quais, por sua vez, se materializam na exposição das populações expostas a estes eventos, nas consequências mais graves sobre a saúde e as condições de vida, e na baixa capacidade de governança para estratégias de redução do risco e construção da resiliência. Ao proporcionar a continuidade das medidas de reabilitação, estas devem estar encadeadas com as de reconstrução, transformando o desastre em lição e oportunidade para desenvolver e aplicar medidas para reduzir o risco de desastres futuros e promover a saúde através da sustentabilidade ambiental e equidade social.