Pesquisa da Faculdade de Medicina da USP conclui que pequenos aumentos nas concentrações de poluentes levam trabalhadores do tráfego e taxistas a apresentarem mudanças na variabilidade da frequência cardíaca, principalmente a diminuição da atividade parassimpática durante o repouso. Indivíduos que não tem tanto contato com a poluição apresentaram essa redução apenas durante atividades físicas.

O estudo O efeito da poluição na variabilidade da frequência cardíaca de controladores de tráfego e taxistas na cidade de São Paulo foi realizado por Daniel Alveno e orientado pelo Professor Celso Carvalho. Alveno conta que apesar de saber dos malefícios da poluição para a saúde dos seres humanos, existia uma dúvida sobre ao comportamento cardiovascular de indivíduos que trabalham sob altos índices de poluição diariamente em comparação às pessoas menos expostas, fator que o motivou a desenvolver a pesquisa.

Para a análise, foram selecionados 75 trabalhadores em triagem no Hospital das Clínicas, que se dividiram em dois grupos: um composto por 65 indivíduos trabalhadores do tráfego e outro utilizado como controle, formado 18 por funcionário do Horto Florestal de São Paulo. Posteriormente, eles foram novamente divididos entre a presença e a ausência de comorbidades (existência de duas patologias em um mesmo paciente), o que deu origem ao grupo “hipertensão ou diabetes”,  com 21 pessoas.

Os voluntários foram questionados sobre suas atividades, história de saúde pregressa, hábitos e atividades diárias, e submetidos a quatro avaliações no período de um mês, sendo uma por semana e em dias distintos. Em cada uma das avaliações, os trabalhadores passaram 24 horas com um medidor de poluição e imediatamente após entregarem o equipamento foi realizada a avaliação da variabilidade da frequência cardíaca durante o repouso e em exercício. “O medidor de poluição foi analisado e os valores foram relacionados com os dados de variabilidade da frequência cardíaca para tentarmos entender se em dias mais poluídos essa variação também sofria maiores alterações”, diz Alveno.

Simpático X Parassimpático

Na variação da frequência cardíaca atua diretamente o Sistema Nervoso Autônomo. Este é subdividido em dois sistemas com distintas funções: o Sistema Nervoso Simpático (SNS) e o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP). O primeiro é responsável por estimular respostas do corpo em situações de estresse (como em exercícios físicos), acelerar os batimentos cardíacos e a respiração, ativar o metabolismo do corpo e aumentar as concentrações de adrenalina e açúcar no organismo. Já o segundo é destinado às situações de repouso, que desacelera a respiração e o coração, diminui a adrenalina, a pressão arterial e o açúcar no sangue.

A variabilidade da frequência cardíaca analisa o equilíbrio e a interação desses dois sistemas ao medir a diferença entre as frequências dos batimentos sob os estímulos nervosos parassimpático e simpático. Uma pessoa com sistema cardiovascular saudável, segundo o pesquisador, apresenta uma alta variabilidade da frequência cardíaca. Entretanto, a sua redução, com predominância do Sistema Nervoso Simpático sobre o Sistema Nervoso Parassimpático indica que funções autônomas do organismo estão alteradas, seja por agentes internos ou externos.

Desequilíbrio do organismo

Os resultados da pesquisa mostraram que mesmo pequenos aumentos nas concentrações de poluentes levam mudanças na variabilidade da frequência cardíaca, principalmente a diminuição da atividade parassimpática ao repouso em trabalhadores do tráfego e taxistas.  em trabalhadores do tráfego e taxistas. O não aumento da atividade simpática é, segundo o pesquisador, devido ao fato desses profissionais já viverem em constante estresse. O resultado se contrapõe ao do grupo de trabalhadores florestais, que apresentou diminuição da atividade parassimpática somente durante o exercício, submetidos a estresse cardiovascular.

Quando separados pela presença de comorbidades, os indivíduo com diabetes ou  hipertensão apresentaram respostas mais intensas do controle cardiovascular ao aumento da concentração de poluentes e tiveram redução parassimpática ao repouso, enquanto os indivíduos do grupo sem comorbidades responderam com menos alterações. “A presença de comorbidades é um fator importante na relação entre poluição e controle autonômico, independentemente da exposição“, afirma Alveno.

Além disso, o pesquisador aponta que a redução do sistema nervoso parassimpático, como encontrado em grande parte dos trabalhadores em dias mais poluídos, é uma resposta ruim à poluição, principalmente para sujeitos expostos diariamente a altos índices.

Fonte: Agência Universitária de Notícias