02/12/2019

Ônibus à diesel causarão a morte de 26 mil pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro até 2025 à um custo de 10 bilhões em perda de produtividade caso não haja a substituição do modelo energético das frotas do transporte público

Estudo do Instituto Saúde e Sustentabilidade aponta ainda 13 mil internações no SUS a um custo estimado em 21,7 milhões

Apenas no mês de outubro, novas pesquisas apontaram a associação entre a poluição atmosférica e o aumento das taxas de abortos espontâneos e de distúrbios neurológicos como depressão e transtorno bipolar. Ou seja, embora cada vez mais estudos revelem os malefícios do ar tóxico, a quantidade de emissões nas regiões urbanas, decorrentes da indústria e dos veículos automotores, e rurais, decorrentes das queimadas, não tem diminuído na mesma escala.

A Agência Europeia do Ambiente, EEA, anunciou em seu Relatório de Qualidade do Ar que quase todos os cidadãos europeus estão expostos a níveis de poluição que excedem os limites saudáveis determinados pela Organização Mundial de Saúde, resultando em 400 mil mortes prematuras apenas no ano de 2016. O relatório aponta que “atualmente, a poluição do ar é o risco ambiental mais importante para a saúde humana” e esclarece que os países devem investir na redução do número de automóveis e na substituição das matrizes energéticas para conter as emissões de poluentes como o material particulado e o dióxido de nitrogênio, já que “quando combatemos a poluição, estamos também lutando contra as mudanças climáticas, e promovendo um comportamento mais saudável”.

O Instituto Saúde e Sustentabilidade, uma ONG fundada por médicos pesquisadores, anunciou com o apoio da Comgás os resultados de um estudo inédito que averígua o impacto em saúde do uso do diesel nos ônibus do transporte público, contabilizando mortes, internações e seus respectivos custos para o sistema público de saúde, além de levantar também os valores em perda de produtividade. A investigação refere-se à cerca de 25% da população brasileira localizada nas regiões metropolitanas (RMs) de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Porto Alegre e Curitiba.

O estudo mensura os impactos da emissão de material particulado fino (MP2,5), um dos maiores vilões da poluição atmosférica à saúde. São micropartículas em suspensão na atmosfera que podem causar ou agravar uma série de problemas de saúde, em especial em grupos considerados mais sensíveis, como idosos e crianças. Segundo a OPAS, a contaminação do ar é responsável por 35% das mortes por doenças respiratórias, 15% das mortes por derrame cerebral, 44% das mortes por doenças do coração, 6% das mortes por câncer de pulmão e 50% dos casos de pneumonia em crianças.

Segundo dados do estudo, para as seis regiões metropolitanas, se a poluição do ar decorrente da emissão de material particulado por todas as fontes emissoras – veículos leves, pesados, indústria, queimadas etc. – se mantivesse a mesma desde 2016, seriam contabilizadas em 7 anos, de 2018 até 2025, 127.919 mortes ao custo estimado de R$51,9 bilhões em perda de produtividade; e 69.395 internações públicas ao custo estimado de R$126,9 milhões ao SUS. Em outras palavras, são 15.990 mortes e 8.674 internações públicas ao ano. Vale enfatizar que nestes registros não estão consideradas quase a metade das internações que, nas seis regiões, são privadas, ou seja, o dado de internações resultantes dos impactos da poluição pode ainda dobrar.

 

Impactos do ônibus à diesel na saúde

Também de acordo com os dados do relatório, 33.751 (27%) das mortes e 19.638 (28%) das internações públicas se devem exclusivamente às emissões de fonte diesel dos ônibus do transporte público destas regiões, ao custo estimado, respectivamente de R$13,6 bilhões e R$37,2 milhões ao SUS, para o período de 2018 a 2025. O número de mortes anuais corresponde a 4.219 e de internações 2.454 ao ano.  Tais dados assustadoramente revelam que a poluição decorrente das emissões dos ônibus que circulam diariamente nas cidades é responsável por mais de um quarto do total de mortes e internações associadas à má qualidade do ar.

O estudo mensura ainda o impacto específico nas regiões metropolitanas de São Paulo e Rio de Janeiro, pois elas sozinhas acumulam 105.947 das mortes, ou seja, 82% da mortalidade relativa à emissão de poluentes no Brasil concentra-se no eixo Rio São Paulo. A perda de produtividade decorrente deste impacto fica na casa dos R$43,9 bilhões em seis anos. Ainda, vale enfatizar que das mortes totais nas RMs de São Paulo e Rio de Janeiro, 26.107 (25%) provém tão somente dos ônibus à diesel do transporte público, ao custo de R$10,8 bilhões ao SUS.

Nestas duas regiões ocorrerão, ainda, 51.106 internações públicas por doenças respiratórias, cardiovasculares e câncer de pulmão, totalizando 6.388 internações anuais ao custo de R$84,5 milhões ao SUS. Destes valores, os dados exclusivos das emissões decorrentes dos ônibus representam 12.947 mortes (1.618 internações anuais), ao custo estimado em R$21,7 milhões ao SUS.

Segundo a CETESB, em 2018 40% do material particulado MP10 derivava de fonte veicular na região metropolitana de São Paulo, sendo que cerca de 80% da sua emissão se deve às frotas de ônibus e caminhões à diesel, e cerca de 25% de emissões apenas por ônibus e micro-ônibus. A frota diesel de caminhões e ônibus juntos corresponde a 233 mil veículos. Somando-se os comerciais leves a diesel, a frota diesel corresponde a 419 mil veículos. Veículos pesados são, portanto, uma fonte significativa de emissões de poluentes locais e impactos negativos à qualidade do ar no Brasil. Além de apresentarem as maiores taxas de emissões, percorrem maiores distâncias e apresentam vidas úteis mais longas. A frota de ônibus corresponde, então, a apenas 9,9% da frota diesel – um excelente alvo para políticas públicas tendo em vista a redução de adoecimento.

Assim, o relatório do Saúde e Sustentabilidade indica que a frota total de ônibus, que representa apenas 10% da frota de fonte diesel no Brasil, é responsável por 25% das emissões de material particulado MP2,5 como também 25% da mortalidade e internações públicas.

Curitiba, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo assumiram nacionalmente a liderança de iniciativas para contribuir com o atingimento das metas do Acordo de Paris, como parte do compromisso junto ao Programa de Planejamento das Ações Climáticas na América Latina do C40. Dentre as estratégias, o prefeito Bruno Covas anunciou o lançamento do Plano de Ação Climática do município de São Paulo em 2020. Para avançar, no entanto, é decisivo o destrave do processo de licitação dos ônibus, atualmente atrasado por empasses político-econômicos. O Saúde e Sustentabilidade junto ao Greenpeace calcularam que, caso o diesel fosse substituído em 100% da frota por energias renováveis, teríamos cerca de 1 vida salva por dia até 2050 no município.

 

INSTITUTO SAÚDE E SUSTENTABILIDADE

O Instituto Saúde e Sustentabilidade, fundado em dezembro de 2008, é uma Organização da Sociedade Civil. Seu principal objetivo é proporcionar a melhoria da saúde humana e o viver nas grandes cidades por meio da transformação do conhecimento científi­co em informação clara e acessível, do incentivo à mobilização social e da construção de políticas públicas.

 

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