O envenenamento pelo ar é menos midiático do que acidentes de trânsito e assassinatos. Não há sangue nem manchetes. Mas o perigo existe e é real

O que é mais fatal: o trânsito, a criminalidade ou a poluição do ar? Se o leitor respondeu um dos dois primeiros, errou. Informações e estudos recentes demonstram que a poluição do ar provoca mais mortes do que os acidentes de trânsito e todos os criminosos juntos. Em Sorocaba, considerando-se o resultado de estudo publicado em setembro pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade, 186 pessoas morreram em 2011 por doenças atribuídas à má qualidade do ar. São 81 mortes a mais (77,14%) do que a soma dos homicídios dolosos (51) e das mortes no trânsito (54) registradas naquele ano.

O envenenamento pelo ar é menos midiático do que acidentes de trânsito e assassinatos. Não há sangue nem manchetes. As mortes ocorrem em quartos silenciosos de hospitais. Mas o perigo existe e é real. Em outubro, uma entidade ligada à Organização Mundial da Saúde (OMS), a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (Iarc, da sigla em inglês), classificou a poluição do ar exterior como cancerígena. Esta foi a primeira vez que a poluição atmosférica como um todo, e não algumas substâncias presentes no ar, foi apontada pela Iarc como fator causador do câncer.

Não existem, ainda, dados mais recentes sobre mortes provocadas por poluição em Sorocaba. Mas o total de 2011, detalhado no estudo Avaliação do Impacto da Poluição Atmosférica no Estado de São Paulo sob a Visão da Saúde, é alto mesmo quando comparado aos números de 2013 de acidentes e homicídios. Entre janeiro e outubro, como noticiou este jornal no domingo (Calamidade -Violência no trânsito já registra 76 óbitos neste ano, pág. A6), morreram 7,6 pessoas por mês em acidentes de trânsito. A média mensal das vítimas da poluição em 2011 representa mais do que o dobro: 15,5. Em relação aos homicídios dolosos, a distância é ainda maior, uma vez que Sorocaba registrou em média 5,7 desses crimes por mês entre janeiro e setembro deste ano.

Essas ponderações são importantes neste momento em que os sorocabanos discutem os subsídios ao sistema de transporte coletivo e começam a sentir com mais intensidade e frequência os travamentos e a lentidão do trânsito, agora não mais nos horários de rush, mas a qualquer hora do dia. A injeção de recursos municipais no transporte público deverá subir de R$ 14,25 milhões (no período de junho de 2012 a maio deste ano) para R$ 29,05 milhões entre junho de 2013 e maio de 2014. Não se trata, porém, de investimento com potencial de melhorar a qualidade do transporte, e sim de reposição das gratuidades e dos custos que deixaram de ser cobertos com o cancelamento do reajuste das tarifas, em junho último.

As mortes atribuídas à poluição atmosférica e o risco, agora admitido oficialmente pelas autoridades mundiais de saúde, de adquirir um câncer apenas por respirar o ar da cidade são um alerta para que a população e os governantes reavaliem a questão da mobilidade urbana sob outras perspectivas que não sejam focadas exclusivamente no conforto e agilidade, como ocorre hoje. Com uma frota de 414,3 mil veículos (dos quais a quinta parte é composta por motos, que são mais poluentes), Sorocaba caminha para um impasse dos mais graves na mobilidade e na qualidade do ar. É imprescindível pensar o transporte também pela ótica da saúde pública.

Enquanto não se viabilizam soluções mais próximas do ideal — que passam pela busca de um modelo “europeu” de transporte coletivo, suficientemente bom para ser utilizado inclusive por aqueles que dispõem de poder aquisitivo para ter condução própria –, o poder público deve, ao menos, intensificar as operações de fiscalização dos veículos, a fim de identificar e retirar de circulação aqueles que estão desregulados e poluem mais. Lei para isso já existe. Mais do que nunca, aplicá-la é vital.

Fonte: Cruzeiro do Sul