26/09/2018

Má qualidade do ar mata mais do que trânsito, assassinato e alguns tipos de câncer: ouça entrevista de Evangelina Vormittag na íntegra na rádio CBN

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A médica e diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade apresentou os resultados do estudo que apontam 11 mil mortes anuais em São Paulo devido a poluição atmosférica. Confira abaixo:

Rádio CBN Por Talis Mauricio

Desde criança o segurança Genilson Almeida sofre de bronquite. Quando o tempo fica seco em São Paulo, sempre é a mesma história.

“Não tem como, o ar fica mais pesado, você fica incomodado com o ar seco, a poluição densa, uma falta de ar constante, nariz muito seco, os olhos ardem demais. Atrapalha bastante, principalmente no meio do dia”.

Genilson se previne para não virar estatística. Afinal, mais de 11 mil pessoas morrem todos os anos no Estado por problemas de saúde agravados pela má qualidade do ar. A poluição mata mais que o trânsito, a violência e alguns tipos de câncer.

“Todo mundo fica muito assustado com o número de violência e assassinato e acidentes de trânsito. 11 mil é mais do que morte por assassinato, acidente de trânsito, câncer de mama, câncer de próstata. Então, é um problema de saúde pública grave”.

O levantamento é do Instituto Saúde e Sustentabilidade. Segundo a diretora da entidade, Evangelina Vormittag, especialista em Patologia Clínica, se nada for feito, até 2030 o Estado terá um gasto de mais de R$ 1 bilhão em saúde. Crianças e idosos são os que mais sofrem, já que a poluição pode agravar quadros de pneumonia e contribuir para arritmia, infarto do coração e derrame cerebral.

Evangelina explica que os padrões atuais de medição da qualidade do ar estão obsoletos. O próximo governo precisa se adequar ao modelo da Organização Mundial da Saúde. No caso do material particulado, nocivo para a saúde, o Brasil permite concentração máxima de 120 microgramas por metro cúbico. A OMS, 50.

“Os níveis de poluição no Estado de São Paulo estão muito acima dos níveis da Organização Mundial da Saúde. É como se a OMS determinasse que para você dizer que uma pessoa tem febre, ela tem que ter uma temperatura acima de 37,5º. Aí o Brasil resolve adotar, em vez de 37,5º para febre, 39º. E aí todas as pessoas que tiverem febre entre 37,5º e 39º não vão ter diagnóstico nem tratamento e vão morrer”.

As cidades com maior nível de poluição são as industriais, como Cubatão, Santa Gertrudes, Paulínia, Campinas e São Bernardo do Campo. Mas, o aumento constante da frota de veículos e, consequentemente, o trânsito, também contribuem para a má qualidade do ar. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo mostra que duas horas parado no congestionamento equivalem a um cigarro fumado.

O médico patologista Paulo Saldiva, diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP, afirma que a solução está no investimento em transporte público.

“O tempo perdido no trânsito é um importante fator para respirarmos poluição. Nós temos também que reduzir o tempo em que as pessoas ficam presas em congestionamentos intermináveis. Então, é preciso um estímulo para que o governo invista em transporte e que não basta ser feito só em nível municipal, porque são as pessoas menos favorecidas as que mais tempo ficam em seus deslocamentos, pois moram mais longe”.

Outras medidas apontadas para melhorar a qualidade do ar são a implantação da inspeção veicular estadual, o estímulo ao uso de energia limpa e o desestímulo a combustíveis fósseis, como o diesel usado nos coletivos públicos.

No próximo capítulo, os principais desafios para despoluir os rios do Estado.