Professor Saldiva é um brilhante pesquisador e verdadeiro mestre, com quem tivemos a honra de aprender. Essa é a opinião compartilhada pelas dezenas de alunos, colegas e amigos.

Ilustre cientista , distingue-se pela sua habilidade no campo da pesquisa. Atua em três linhas de pesquisa: Saúde Humana, Poluição Atmosférica e Patologia Pulmonar.

Pioneiro, é chefe do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental – LPAE da Faculdade de Medicina da USP, criado na década de 70, tornando-se referência no assunto e um dos pesquisadores que mais publicam na área.

Tornou-se Professor Titular aos 39 anos, o mais jovem entre todos da Faculdade de Medicina da USP. Professor Saldiva publicou 366 artigos em revistas científicas. Seus números acadêmicos são incomparáveis e inalcansáveis, melhor constatação de tantos alunos que teve ao seu lado.

Como mestre, distingue-se pela determinação, entusiasmo e dedicação aos seus alunos, incentivando-os e introduzindo-os ao mundo da pesquisa científica de forma ímpar. O seu amor pela ciência médica, a sua retidão de caráter, a confiança depositada em seus alunos e o seu bom humor contagiam e enobrecem seu ambiente de trabalho.

Simples, compreensivo e bom como é, valoriza o pesquisador como ser humano em todas as etapas, respeitando o aprendizado, a individualidade e a liberdade de ser de cada um. Seus exemplos de dignidade, perseverança, humildade e seus ensinamentos propiciaram aos seus alunos crescimento profissional e pessoal indiscutíveis.

Além disso, acredita que a Universidade tem que sair dos seus limites e buscar o caminho da difusão do conhecimento na sociedade. Essa crença se reflete nos trabalhos que tem orientado em educação ambiental, trazendo jovens da escola pública para o LPAE, mostrando que vale a pena aprender, acreditar nas próprias potencialidades e transformar uma realidade inerte no processo de ensino e aprendizado.

Professor Saldiva nos honra como Patrono do Instituto Saúde e Sustentabilidade e nos inspira como exemplo a que almejamos alcançar no futuro. Nossos valores refletem a sua pessoa: idealismo, ética, ousadia, responsabilidade social, cidadania, excelência e profissionalismo. Somos profundamente gratos, pois sua contribuição tem sido extremamente relevante em prol do engrandecimento da organização.

Hoje, Professor Saldiva tem um enorme desejo de transformar o que criou e produziu em ciência, em ações que ajudem a sociedade a desenvolver uma consciência social e ambiental. Tornar o teórico em benefício real para a melhoria da sociedade, principalmente os mais carentes. Quem sabe, nós do Instituto, possamos ajudá-lo a alcançar o que tanto almeja, com o mesmo amor, alegria e seriedade que ele se dedica ao próximo.

Evangelina da Motta P. A. de Araujo Vormittag e Luiz Alberto Amador Pereira (seus alunos)

Poluição Atmosférica

O texto aqui apresentado baseia-se em estudos sobre poluição atmosférica na cidade de São Paulo, produzidos principalmente pelo grupo de pesquisadores literalmente formado pelo Prof. Saldiva e desenvolvidos no Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da FMUSP.

A produção de poluentes tóxicos no processo do uso de combustíveis fósseis, ou da queima de biomassa para produzir eletricidade e para o transporte, representa uma das principais causas das mudanças climáticas, é a parte mais óbvia das prováveis consequências para a saúde do aquecimento global, responsável por 800 mil mortes/ano.

Além de mudanças globais do clima, as emissões de automóveis são responsáveis por alterações climáticas em menor escala, responsáveis por ilhas de calor no coração dos grandes conglomerados urbanos. Apesar da pequena escala de tais gradientes em temperatura e clima, a alta densidade de população em áreas metropolitanas leva um grande número de indivíduos a risco dentro de uma variação limitada de espaço.

A poluição do ar, como resultado das altas concentrações de material particulado e outros compostos, tem diversas causas, como fontes industriais, atividades de construção civil, ressuspensão de poeira por veículos, que podem ser agravadas pela ocorrência de fatores climáticos que dificultem a dispersão de poluentes, como inversão térmica, ausência de chuvas, piorando a qualidade do ar neste ecossistema. As fontes móveis passaram a ter maior participação na carga de poluentes emitidos na atmosfera do que as fontes industriais e se tornaram a principal causa de poluição do ar nos grandes centros urbanos.

As alterações acima expostas levam ao longo dos anos a uma redução da expectativa de vida. Por exemplo, estima-se que os níveis atuais de poluição da cidade de São Paulo promovam uma redução de cerca de 1,5 anos de vida, devido a três desfechos: câncer do pulmão e vias aéreas superiores, infarto agudo do miocárdio e arritmias e bronquite crônica e asma. Segundo Saldiva, viver em São Paulo corresponde a fumar quatro cigarros diariamente em virtude das partículas em suspensão no ar.

Os custos dos efeitos crônicos da poluição do ar, estimados no valor dos dias de vida perdidos em função dos efeitos acima descritos, são substanciais. No caso da cidade de São Paulo, a utilização de funções concentração-efeito bem definidas estima que a manutenção da poluição do ar acima dos padrões da OMS causa aproximadamente 4.000 mortes/ano prematuras, com um custo financeiro que, dependendo da métrica, pode variar entre centenas de milhões a mais de um bilhão de dólares por ano.

Os níveis de poluição atmosférica têm se mostrado críticos em diversas partes do mundo, principalmente em regiões intensamente urbanizadas, havendo larga comprovação científica dos agravos da poluição atmosférica à saúde humana.

A literatura médica está repleta de estudos sobre efeitos agudos da poluição do ar sobre a saúde. A maior ênfase é dada a dois desfechos: mortalidade e admissões hospitalares. O Brasil está entre os cinco países no mundo que mais publicam nesta área. Temos a ciência, o conhecimento, as evidências, mas não conseguimos transformá-las em ação.

Se mortes e filas em hospitais sensibilizam pouco ou quase não fazem parte das discussões das ações públicas, um outro fator que deve estimular o município a buscar soluções para a questão dos efeitos locais das emissões de gases de efeito estufa e de poluentes é o alto custo financeiro que os efeitos maléficos destes gases causam para o município no atendimento à saúde da população.

Em um estudo realizado para a série temporal de 1991 e 1994, concluiu-se que a poluição atmosférica causa a perda de US$ 3,2 milhões anuais para a cidade, seja por despesas hospitalares, mortalidade ou doenças ligadas à poluição, ou dias perdidos no trabalho.

A população estudada refere-se a idosos e crianças; com dados do complexo hospitalar público referentes a internações e atendimentos em prontos-socorros, e informações do Datasus (sistema informatizado do SUS) no Município de São Paulo, através da metodologia DALY (Disability Adjusted Life Years), associada à expectativa de vida do brasileiro medida pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os paulistanos, entre crianças e idosos, perdem anualmente 28.212 anos de vida. Para as crianças foram avaliadas as consequências respiratórias como resultado da poluição, e, entre idosos, os efeitos cardiovasculares e respiratórios. O estudo chegou aos US$ 3,2 milhões perdidos anualmente em São Paulo utilizando indicadores nacionais. Além disso, os mesmos US$ 3,2 milhões se transformariam em US$ 208,8 milhões, se no seu cálculo fossem utilizados indicadores norte-americanos. Este valor ainda é considerado subestimado, pois foi calculado usando dados referentes a crianças e idosos, não tendo considerado os efeitos adversos nos adultos jovens.

Considerando o conjunto dos poluentes medidos pela rede de monitoramento, a Região Metropolitana de São Paulo – RMSP é a que apresenta os maiores índices de poluição do ar do estado. Até o final da década de 1980 as indústrias eram reconhecidas como as principais fontes de emissão de poluentes do ar na região. Porém, nas últimas duas décadas, a contribuição dos veículos se tornou majoritária e hoje, de acordo com estimativas da agência ambiental do Estado de São Paulo – CETESB, 90% dos poluentes gasosos são originados a partir da queima de combustíveis fósseis nos veículos automotivos (97% das emissões de CO – monóxido de carbono e 96% de NO2 – dióxido de nitrogênio).

Vários países estabeleceram padrões de qualidade do ar, ou limites máximos tolerados, a partir dos quais haveria danos à saúde. O Brasil adotou em 1990 os mesmos padrões através do Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA). No entanto, hoje os padrões vigentes estão acima dos recomendados pela OMS.

Segundo o Instituto de Energia e Meio Ambiente, em 2006 o padrão aceitável de ozônio foi ultrapassado com grande frequência. Há registros de que São Paulo é a área de maior concentração de ozônio e material particulado do país.

No entanto, acredita-se que não existam níveis seguros de concentração de poluentes para a saúde humana, questionando-se os estabelecidos. A poluição atmosférica, mesmo com valores abaixo do nível permitido pelos órgãos responsáveis, tem afetado de forma significativa a vida dos seres vivos. Embora o mecanismo biológico específico ainda esteja em estudo, diversos autores sustentam que o efeito deletério da poluição atmosférica na saúde da população é causal.

O LPAE da USP vem investigando o impacto dos poluentes na saúde dos habitantes da cidade. Crianças e idosos têm sido identificados como os dois grupos etários mais suscetíveis aos efeitos da poluição atmosférica. Além disso, esses efeitos acontecem principalmente nos sistemas respiratório, por contato direto com o poluente, e cardiovascular, por ação direta nas células dos vasos e coração, ou por uma resposta inflamatória sistêmica. Portanto, apesar de todos estarem sujeitos aos efeitos adversos dos poluentes do ar, são os indivíduos portadores de doenças do pulmão e/ou do coração os mais afetados.

Na década de 1990, as primeiras estimativas de efeito da poluição do ar mostraram que a mortalidade de idosos está diretamente associada com a variação do PM10 (material particulado de diâmetro inferior a 10 µm que atinge alvéolos pulmonares) inalável, pois variações de 10 μg/m3 nas suas concentrações aumentam a mortalidade de idosos acima de 65 anos em 13 % (considerando todas as causas de óbitos). Entre essas mortes, a maior parte se deve às doenças respiratórias e cardiovasculares.

Se os poluentes podem aumentar o número de óbitos, antes disso podem adoecer as pessoas. Aumentos no número de atendimentos em pronto-socorro e internações hospitalares por doenças respiratórias (doença pulmonar obstrutiva crônica, asma, pneumonia e gripe) em idosos e doenças isquêmicas do coração também estão ligados a aumentos de concentrações de PM10, SO2 (dióxido de enxofre), CO (monóxido de carbono), NO2 (dióxido de nitrogênio), poluentes primários, e O3 (ozônio), poluente secundário. Demonstrou-se a relação entre alguns poluentes e o aumento da mortalidade em idosos a curto prazo, comprovando também a ocorrência de efeitos agudos decorrentes da poluição.

Mais recentemente, O LPAE demonstrou que os efeitos dos poluentes nas doenças cardiovasculares se manifestam também em adultos e que as mulheres podem ser mais acometidas que os homens. Em estudo recente, analisando 66 mil mulheres em 36 áreas metropolitanas nos EUA, no período pós menopausa, sem história pregressa de doença cardiovascular, observou-se aumento de 24% de risco para qualquer evento cardiovascular para aquelas mulheres expostas a variações de 10 μg/m3 de PM2,5 (material particulado de diâmetro inferior a 2,5 µm que atinge alvéolos pulmonares) e aumento de 76% de risco para mortalidade por evento cardiovascular.

Entre as crianças e os adolescentes, os efeitos adversos dos poluentes se mostram amplamente distribuídos por diferentes grupos etários. O impacto é maior entre as crianças com menos de 2 anos e entre os adolescentes com mais de 13 anos de idade.

Neste grupo, os atendimentos de pronto-socorro e as internações hospitalares por doenças respiratórias são bons indicadores dos efeitos da poluição do ar. Dentre as cidades da região, os maiores efeitos dos poluentes sobre as doenças respiratórias são encontrados na cidade de São Paulo e nas cidades do ABC paulista. A poluição atmosférica tem sido associada à diminuição da função pulmonar, absenteísmo escolar, decréscimo nas taxas do pico do fluxo respiratório em crianças normais e aumento no uso de medicamentos por crianças ou adultos com asma.

Estudos demonstram alterações também no período fetal relacionadas à poluição, mortes fetais tardias e diminuição do peso de nascimento. Pode-se então supor que a poluição esteja afetando o desenvolvimento intra-uterino das crianças que aqui nascem. Entre os mecanismos biológicos envolvidos no comprometimento do crescimento fetal estão as alterações que podem ocorrer em nível placentário. Acredita-se que haja um efeito tóxico direto sobre o feto, por meio da diminuição do suprimento fetal de oxigênio, devido à redução da capacidade do transporte de oxigênio, ou pela alteração da viscosidade sanguínea devido a uma resposta inflamatória.

A prevalência de crianças com baixo peso ao nascer tem se mantido alta nos últimos 22 anos, apesar das melhorias de saneamento e de assistência à saúde. A realização efetiva de medidas de controle dos poluentes possibilitará o aumento de recém-nascidos saudáveis, com peso favorável e potencial normal de crescimento e desenvolvimento. Consequentemente, essas crianças terão maior sobrevida.

Após o nascimento, nos primeiros 28 dias de vida, a mortalidade neonatal também é influenciada pelos poluentes e esse efeito adverso pode ser notado, de modo mais intenso, até os cinco anos de idade. Curiosamente, nascem mais meninas que meninos em áreas mais poluídas do município de São Paulo. Esse fator é indicativo de uma reação na reprodução humana diferenciada por conta da concentração de partículas inaláveis.

A queima de biomassa é um fator importante de poluição. A OMS relatou recentemente 1,5 milhões de mortes, 2/3 de crianças, e as consequências para a saúde causada pela queima de biomassa para cozinhar no interior das casas. (OMS, 2006) Os níveis de poluentes de ar no interior das casas são maiores que os achados no centro da cidade de São Paulo, em períodos de pico de trânsito. Em áreas do Nordeste há fogões a lenha em mais de 60% das casas.

Estudos epidemiológicos em comunidades expostas à fumaça pela queima de biomassa em ambientes internos já indicavam uma relação consistente entre essa exposição e o desenvolvimento de doença pulmonar crônica em adultos, além de bronquiectasias, fibrose pulmonar e infecções respiratórias em crianças. Importante lembrar a queima de biomassa em favelas na cidade de São Paulo. Outros estudos confirmaram a associação da exposição à fumaça pela queima de biomassa em ambientes internos e maior incidência de asma em adultos e crianças, e de recém nascidos de baixo peso.

A queima de biomassa em ambientes abertos também produz poluição atmosférica. Existem no Brasil 6,7 milhões de hectares plantados com cana-de-açúcar e sua colheita é realizada após a queima dos canaviais, o que gera grande quantidade de material particulado, expondo milhões de pessoas à poluição. Um estudo, realizado em Piracicaba confirmou que a queima de canaviais leva a um aumento da poluição atmosférica na região: a média anual de PM10 foi de 56 μg/ m3, a mesma de SP, com variações de 88 μg/ m3 no período de safra, e 29 μg/m3 na entressafra (o limite máximo permitido pelo CONAMA é 50 μg/ m3). Além disso, observou-se o aumento significativo de internações hospitalares por doenças respiratórias em crianças, adolescentes e idosos. Concluindo, a queima de palha de cana-de-açúcar é uma fonte de poluição atmosférica semelhante à produzida por combustíveis fósseis em grandes centros urbanos.

É possível concluir também, através de outros estudos, que tanto as doenças infecciosas quanto as doenças inflamatórias são afetadas pelos poluentes . Além disso, podem ser observadas alterações no sistema imunológico de pessoas normais, com redução da defesa do sistema mucociliar.

Ponto importante é a possibilidade de encontrar alterações clínicas e metabólicas, que são precursoras de doenças respiratórias e cardiovasculares, entre indivíduos sadios, mas expostos aos poluentes do ar. Esse é o caso do estudo em controladores de tráfego da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) da Prefeitura Municipal de São Paulo, que demonstrou alterações da pressão arterial e de marcadores inflamatórios sanguíneos dos controladores em dias mais poluídos. Essas alterações podem não ser suficientes para desencadear doenças em indivíduos normais, mas podem explicar o que leva as pessoas com doenças prévias à descompensação clínica nos dias mais poluídos.

Além dos grupos suscetíveis, os estudos realizados na RMSP identificaram alguns aspectos muito importantes para os estudos de epidemiologia ambiental. Mesmo entre crianças, adolescentes e idosos, os efeitos dos poluentes podem ser modulados pela condição socioeconômica daqueles que estão expostos. Os indivíduos apresentam respostas diferentes a estímulos semelhantes em função das suas condições basais de vida. Esse ponto é de fundamental importância na formulação de políticas públicas voltadas para o estabelecimento de metas de redução de emissão de poluentes.

A Bibliografia pode ser encontrada no Sumário de Evidências, realizado pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade a partir do trabalho de 34 autores durante o Workshop Saúde Sustentabilidade e Cidadania em 2009.