“Um dia aquela região estava cheia de árvores. No outro, havia sido murada. No dia seguinte, já tinham derrubado as árvores e, logo depois, já estava tudo construído.” O relato da agricultora orgânica Valéria Maria Macoretti, moradora há oito anos da Área de Proteção Ambiental (APA) Bororé-Colônia, na zona sul da capital, descreve um repentino loteamento irregular em um antigo sítio no limite da reserva com área urbana. O depoimento faz parte da matéria “Desmatamento ‘formiga’ ameaça área de proteção e Billings na zona sul de SP” de O Estado de S. Paulo em 23 de agosto.

O desmatamento formiga é um processo proveniente de invasões e adensamentos populacionais que começaram há pouco mais de dois anos. A preocupação principal tem sido o prejuízo às regiões de mananciais, sobretudo em meio à crise hídrica de São Paulo. As áreas mais afetadas pelos pequenos desmatamentos consecutivos ficam a entre as Represas Billings e Guarapiranga.

Para saber mais sobre o assunto, acesse a matéria completa da repórter Giovana Girardi. Em resposta ao gradual desmatamento em São Paulo, Evangelina Vormittag, diretora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, e Oded Grajew, coordenador-geral da Rede Nossa São Paulo se uniram para defender as áreas verdes da capital. A análise dos representantes foi divulgada junto com a matéria de O Estado de S. Paulo e pode ser lida abaixo.

Em defesa das áreas verdes da capital
A preservação das áreas verdes é fundamental para a cidade, especialmente, em regiões de mananciais e em época de crise hídrica. Para a população ter direito à água, é preciso defender as poucas reservas ainda não poluídas desse líquido tão precioso. É vital manter as matas ciliares que ainda resistem e recuperar as já destruídas.

São Paulo é, em grande parte, impermeabilizada, o que causa efeitos como ilhas de calor e tempestades mais fortes que provocam enchentes. São as áreas verdes que absorvem a água da chuva e preservam os mananciais. Além disso, é visível a todos a carência de parques, praças e arborização – das 32 subprefeituras, 23 delas têm áreas verdes abaixo do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), de 12 metros quadrados por habitante.

Mesmo diante dessa situação, a Prefeitura comete o enorme equívoco de pretender usar as áreas verdes públicas para outros fins, prevendo, até mesmo, a possibilidade de desmatamento. Esse risco está embutido no Projeto de Lei do Zoneamento (PL 272/2015), que o prefeito Fernando Haddad (PT) enviou à Câmara Municipal. Artigos 27 a 34 do projeto abrem a possibilidade do uso das áreas verdes para a instalação de equipamentos públicos.

No lugar dessa perigosa e inaceitável brecha na legislação municipal, a população necessita da defesa incondicional do pouco que resta de áreas verdes na cidade, considerando-as inalienáveis, assim como necessita de propostas e planos para que elas sejam ampliadas e devidamente protegidas.

As áreas verdes são fundamentais nos espaços urbanos e prestam inúmeros serviços ambientais e à saúde humana. Entre 2005 e 2013, a quantidade de morte em decorrência de doenças do aparelho respiratório pulou de 7.540 para 9.696, um aumento de quase 30%.

Organizações da sociedade civil convidam o Executivo a modificar esses artigos, tornando as áreas verdes do Município protegidas do risco de desmatamento ou de qualquer outro fim que não seja o de sua preservação incondicional. E convidam os vereadores a atuarem no mesmo sentido, rejeitando qualquer risco às áreas verdes do Município.