O isolamento trouxe à tona uma das mais dolorosas marcas da estrutura social contemporânea – a exploração não remunerada do trabalho feminino no lar

O quadrinho criado pela cartunista francesa Emma e traduzido no Brasil pelo grupo Bandeira Negra expõe em linhas claras a dificuldade da rotina da mulher nos mínimos detalhes que, em geral, passam despercebidos aos olhos dos moradores do lar. Veja a seguir.

A tirinha trata de forma didática de um fenômeno há muito discutido no centro do movimento feminista: a dedicação das mulheres ao trabalho do cuidado, não remunerado e invisibilizado. Entendido também como trabalho doméstico ou trabalho reprodutivo, referente à função de reprodução humana realizada pelas mulheres ao longo da história.

O que isso significa? Em nosso sistema econômico e cultural os grupos sociais exercem funções pré-determinadas e, dentre elas, a mulher passou a ser responsabilizada pela formação da mercadoria mais valiosa para a manutenção deste modelo: a força de trabalho. Em um padrão familiar tradicional, mas ainda muito vigente, a mulher procria, educa os filhos e ainda assegura às necessidades afetivas, sexuais e alimentares do companheiro para que ele se mantenha produtivo em seu emprego remunerado. Desta forma a roda nunca para de girar.

Com a crescente entrada destas mesmas mulheres no mundo do trabalho o que acontece na prática é um acumulo de tarefas. A atividade remunerada no mercado convencional é somada àquela não remunerada do cuidado: cuidado do lar, dos filhos, do companheiro, dos pais, dos sogros, dos pets, do jardim, da louça, das compras, das contas, da faxina. Só de ler essa lista já cansa, né? Imagine ser responsável não apenas por sua execução, mas também seu planejamento. É disto que trata a tirinha de Emma. Em uma agência de publicidade quem planeja não executa, são funções distintas, tendo em vista que a atividade mental de planejamento de uma atividade é exaustiva e delongada.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, Pnad Contínua do IBGE sobre Outras Formas de Trabalho 2019 revela que a dedicação média da mulher ao trabalho invisível é de 20 horas semanais e que 95,5% das brasileiras prepara a alimentação cotidiana no lar. É interessante notar ainda que, de acordo com os resultados do levantamento, o homem quando vive sozinho realiza os afazeres de forma equiparada. Contudo, quando coabita com outros moradores ou quando é cônjuge as taxas reduzem drasticamente. Assim, culturalmente o homem transfere as responsabilidades para a mulher em sua presença, algo que se estabeleceu desde cedo na relação materna e que é transferido para a relação afetiva após a vida adulta.

No Brasil a responsabilidade do cuidado também é terceirizada. Famílias de classe alta ou mulheres que ascenderam profissionalmente tem condições de contratar este serviço, em geral de uma mulher em situação mais precária como relata o belo filme Que horas ela volta? da diretora Anna Muylaert. Neste caso o cuidado ainda demanda o abandono das próprias necessidades e da própria família.

Mulheres e pandemia

Visando assegurar as medidas de prevenção indicadas pela Organização Mundial de Saúde, uma parcela da sociedade pode manter o isolamento com a viabilidade do trabalho remoto / home office. Muitas surpreenderam-se com a necessidade de não poderem contar com a contratação do serviço externo para o lar citado acima.

Na prática, fica a pergunta de como as famílias de todas as classes administram o malabarismo da rotina da educação à distância dos filhos, do trabalho em período integral dos membros da casa, das demandas de limpeza e compras que aumentam significativamente e, até mesmo, do cuidado de pessoas acometidas tanto pela própria Covid quanto outras doenças. A resposta infelizmente é clara: mais uma vez as mulheres seguram essa onda. Uma onda eterna, que nunca cessa, que torna-se um tsunami no interior de cada uma delas “sem o trabalho doméstico, o mundo não se move”. 

Convencionamos denominar esta situação de dupla ou tripla jornada feminina. Contudo, esta realidade, que já era penosa, ganha nuances ainda mais complexas no contexto pandêmico. De acordo com a pesquisa Sem parar: o trabalho e a vida das mulheres na pandemia realizada pela Sempreviva Organização Feminista, metade das mulheres brasileiras passou a cuidar de alguém durante a pandemia da Covid-19, sendo que este número sobe mais para mais de 60% no meio rural.

Não à toa, as mulheres foram as mais afetadas emocionalmente no período. Segundo estudo realizado pela USP, 40,8% das respondentes aumentaram o consumo de drogas ilícitas, cigarros, medicamentos e alimentos, 46,4% tiveram sintomas de depressão, 39,7% de ansiedade e 42,2% estresse. Também, um levantamento da organização espanhola Malasmadres mostrou que 86% das mulheres estão se sentindo apáticas, tristes e desmotivadas.

Futuro de luta, não de flores

Trago este tema em decorrência do mês da luta das mulheres. Mas as perspectivas para o futuro não são românticas. Para que a discussão não acabe junto com este texto, indico o artigo Capitalismo, reprodução e quarentena de Silvia Federici, que afirma que “esta pandemia faz com que injustiças que ocorrem todos os dias (com a guerra, os despejos, os deslocamentos forçados, as expropriações, a contaminação ambiental) se tornem muito visíveis, muito evidentes, e que se resumem na destruição da natureza”. Só podemos então expor as feridas, para um dia quem sabe, curá-las.

AUTORA

Camila Acosta Camargo

Relações Públicas, mestre e doutoranda na USP, docente no ensino superior, fundadora da consultoria Eixo Social e coordenadora de comunicação no Instituto Saúde e Sustentabilidade.