Desde 1986, no dia 29 de agosto se comemora o Dia Nacional do Combate ao Fumo, instituído pela Lei Federal nº. 7.488. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabagismo é a principal causa de morte evitável no planeta, matando, só no Brasil, cerca de 200 mil pessoas por ano. A data estabelecida por lei, portanto, visa esclarecer a fumantes e não fumantes os diversos riscos do uso do cigarro. São mais de 50 problemas de saúde associados ao tabagismo, entre eles, câncer de pulão, infarto do miocárdio, enfisema pulmonar, derrame e hipertensão. Mas, o que ainda é pouco explorado pelas advertências, é o impacto do cigarro ao meio ambiente. Para a psicóloga e vice-diretora da Aliança Contra o Tabagismo (ACT), Mônica Andreis, o consumidor final é apenas uma das pontas da cadeia do tabaco a ser prejudicada.

As consequências ao meio ambiente começam na plantação, que substitui cultivos variados e toma conta de espaços verdes com florestas. Na maioria das vezes, as árvores derrubadas são utilizadas pelas indústrias de tabaco para produzir papel para os cigarros ou para alimentar fornos à lenha usados no processo. “Os produtores são afetados pelo contato direto com a folha de tabaco”, afirma Mônica. O manuseio pode causar a doença do tabaco verde, com sintomas como náusea, vômito, fraqueza, dor de cabeça e tonteira.

Além de o prejuízo ao solo, o cigarro e a fumaça por ele produzida, contribuem para a poluição do ar. Arsênico, amônia e monóxido de carbono são só algumas das milhares de substâncias tóxicas que estão presentes na fumaça. Os fumantes passivos são os mais afetados, mas o cigarro aceso tem também relação direta com a qualidade do ar em suas proximidades, principalmente em ambientes fechados.

O estímulo ao primeiro contato
Esforços para combater o tabagismo e suas consequências ambientais e para a saúde são voltados, sobretudo, a fumantes regulares e a jovens que ainda não tiveram contato com o cigarro.  Em 2000, a publicidade dos produtos do tabaco nos principais meios de mídia como televisão, rádio e publicações impressas foi proibida por lei. Em 2014, a restrição se estendeu aos pontos de venda, não sendo mais permitidas imagens junto aos cigarros. “Agora enfrentamos outras estratégias criadas pela indústria do tabaco após essas leis. Foram criados grandes expositores do produto, luminosos e próximos a balas, chocolates e outros itens chamativos”, diz a psicóloga da ACT. A técnica atrai justamente jovens, o público mais visado pela indústria do tabaco.

Segundo Mônica, 6% dos jovens entre 13 e 15 anos fumam e 20% já ao menos experimentaram o cigarro. Na faixa etária de 14 a 17 anos, o uso do tabaco salta para 10%. O mesmo índice, na população de adultos, está em cerca de 15%. A indústria do tabaco ainda investe em patrocínio de festas universitárias, shows, semanas de moda e lounges em eventos para atrair a atenção do público mais novo.

A apresentação do cigarro tem sido outra forma de conquistar consumidores. Para mulheres, que historicamente fumavam menos do que homens, mas que atualmente experimentam mais o cigarro na adolescência do que o sexo oposto, foram criadas embalagens especiais em forma de bolsas ou de perfumes. Algumas marcas estão investindo na venda de cigarros de enrolar, inclusive com kits completos contendo filtros e papel de seda. “Puro tabaco sem aditivos, tabaco orgânico ou qualquer nomeação semelhante constrói falsas imagens para angariar novos consumidores. A verdade é que o usuário de tabaco morre e a indústria precisa estar atenta para conquistar outros jovens e ampliar seu mercado”.

Novas formas de combate
Promover ambientes saudáveis, ou seja, que promovam escolhas saudáveis e restringem o uso do cigarro tem sido a forma mais eficiente de combate ao tabagismo. “Não basta educar o indivíduo que fumar faz mal. É preciso ter políticas públicas favoráveis à causa, leis antifumo, aumento de impostos sobre produtos de tabaco”, afirma a vice-diretora. Apesar de a maioria das medidas terem sido tomadas no Brasil, existem possíveis melhorias. A primeira delas é proibir a adição de aditivos aos cigarros. Sabores e aromas agradáveis facilitam a iniciação do jovem, tornam o gosto do produto melhor e diminuem a sensação de irritação na garganta.

Além disso, ainda se permite a exibição de maços, recurso que está sendo fortemente explorado pela indústria, com expositores chamativos. Não se trata de proibir a venda do produto, mas sua exposição irrestrita. Por fim, embalagens padronizadas, sem cores e desenhos, apenas com a marca do produto e com imagens de advertências já estão circulando na Austrália para diminuir o apelo visual do cigarro.

Nos últimos 20 anos, o Brasil tem tido uma redução de fumantes na ordem de quase 50%, o que simboliza uma alteração significativa. O preocupante, porém, continua sendo a iniciação pelos jovens, já que metade das pessoas que experimentam o cigarro se torna dependente, prolongando o vício por anos. “A vítima do tabagismo arca com todas as consequências do cigarro sozinha. Não se trata apenas de prejuízos à saúde, mas riscos de perder o trabalho e deixar de ter o convívio social e familiar devido a doenças”, afirma Mônica.