O estudo realizado pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade contabilizou quantas mortes e internações podem ser reduzidas em seis cidades brasileiras

A criação de uma política de inclusão do biodiesel na matriz energética brasileira começou em 2003, quando ocorreram os estudos para a criação do Programa Nacional de Produção e Uso do Biodiesel (PNPB). Desde 2004, a mistura do combustível biodegradável de fonte renovável com o diesel começou com 2% (B2), atingiu 5% (B5) em 2010 e, finalmente, no segundo semestre de 2014, foi aprovado o aumento para 7% (B7). Apesar de as vantagens para o meio ambiente e para a redução de importações serem frequentes justificativas para a implementação cada vez maior do biodiesel, a saúde é mais um aspecto que pode ser contabilizado – e foi levado em consideração no estudo divulgado pelo Instituto Saúde e Sustentabilidade com apoio da Associação de Produtores de Biodiesel (Aprobio).

Os resultados são surpreendentes, tanto para a saúde como para os cofres públicos. Somente na Região Metropolitana de São Paulo, o B7 diminui 3.582 das internações públicas entre 2015 e 2025, que custariam cerca de R$ 8,8 milhões.  Os números aumentam conforme a porcentagem de biodiesel cresce: com o uso da mistura B20, 22.003 internações públicas deixariam de ocorrer até 2025, economizando aproximadamente R$ 53,7 milhões. Os custos ligados a mortes superam os valores de internações. Somadas São Paulo e Rio de Janeiro, o numero de vidas salvas com o uso de B7 e B20 representam, em produtividade, respectivamente, R$ 357 milhões e R$ 2,2 bilhões.

A pesquisa usou dados sobre a qualidade do ar coletados por órgãos ambientais públicos das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e Recife para avaliar o impacto da inserção progressiva de biodiesel no transporte público e na saúde. Diferentes cenários foram traçados para diferentes percentuais de mistura –  B7, B10, B15, B20 – com projeções para os anos de 2015, 2018, 2022 e 2025. Após determinar números de mortes e internações para cada hipótese, os prejuízos econômicos foram calculados.

Para obter os dados necessários, o Instituto buscou pesquisas anteriores que mostravam coeficientes de risco ligados à poluição. A metodologia  para calcular a quantidade de pessoas afetadas são da Organização Mundial da Saúde (OMS). Segundo Evangelina Vormittag, médica e fundadora do Instituto Saúde e Sustentabilidade, a metodologia do estudo foi desafiadora, pois envolvia muitos parâmetros para calculo. “Após analisar os impactos no meio ambiente, saúde e economia para todos os cenários, quatro anos futuros e seis regiões metropolitanas, o estudo ainda fez projeções demográficas”, afirma.

A médica pretende mostrar os benefícios do biodiesel com o estudo, e como o investimento no combustível renovável pode dar retornos para o meio ambiente, para a saúde e para a economia. Além disso, a pesquisa serve como argumento para futuras políticas públicas relacionadas aos temas.

Prejuízos à saúde
Quando contabilizadas, as mortes e internações provenientes da poluição do ar pelo diesel são impressionantes. Segundo Evangelina, são alguns os processos que a combustão do diesel causa no organismo.

Um deles é ligado à respiração e acontece quando as micropartículas liberadas entram na árvore respiratória do pulmão. “Quando as partículas entram na arvore respiratoria, afetam o movimento ciliar e a produção de muco, que, por sua vez, prejudica o poder da defesa do nosso corpo contra vírus, bactérias e substâncias tóxicas”, diz a fundadora. Ao atingirem os alvéolos, as micropartículas causam processo inflamatório local e podem chegar à circulação sanguínea, levando aos efeitos cardiocerebrovasculares, como a formação de trombos e infarto do coração, principalmente em idosos. Além disso, o controle dos batimentos cardíacos pode ser prejudicado. Segundo Evangelina, cerca de 80% dos efeitos para a saúde do material particulado é cardiovascular. Por fim, pode ocorrer uma resposta imunológica às micropartículas, desencadeadoras do câncer.