Estudos de casos em Melbourne, Londres, Boston, São Paulo, Copenhagen e Deli sugerem que alterações na concepção das cidades e mais planejamento em transportes podem ter um impacto significativo na saúde.

Uma nova série publicada na revista médica The Lancet quantificou os ganhos em saúde que poderiam ser alcançados se as cidades incentivassem uma mudança nos modelos de transporte, priorizando a bicicleta e a caminhada em detrimento dos automóveis privados, e investissem em um city design compacto, com distâncias mais curtas entre os locais de atividades dos cidadãos.

Tais melhorias poderiam gerar reduções significativas em doenças não transmissíveis, como doenças cardiovasculares e diabetes, bem como o aumento da atividade física e redução da poluição. É importante ressaltar que em cidades com altos níveis de utilização do automóvel particular, como Melbourne, Londres e Boston, os autores dizem que a promoção de caminhadas e pedaladas deve ser acompanhada por investimentos em calçadas e ciclovias, com o objetivo de proteger os usuários de acidentes com veículos maiores.

Mais da metade da população mundial vive atualmente em áreas urbanas, e em 2050 as grandes cidades dos EUA, China e Índia verão suas cidades aumentarem em 33%, 38% e 96%, respectivamente. Tal crescimento populacional implica diretamente em um aumento das demandas de transporte. O alastramento de empreendimentos residenciais nos EUA, Austrália e Nova Zelândia limita a capacidade das pessoas de realizar seu trajeto diário a pé ou de bicicleta e aumenta significativamente os gastos em transporte público. Neste mesmo caminho, a utilização do automóvel particular aumentou dramaticamente no Brasil, China e Índia, levando a declínios em atividades físicas, aumento da poluição atmosférica e aumento das taxas de morte e ferimentos graves em estradas, os quais combinados aumentam os níveis globais de doença crônica e lesões.

“Com a população mundial estimada para chegar em 10 bilhões de pessoas em 2050, e três quartos dessa população vivendo em cidades, o planejamento urbano deve ser parte de uma solução global para combater os resultados adversos para a saúde. O planejamento foi a chave para o fim das epidemias de doenças infecciosas no século 19 com o investimento em saneamento, habitação e a separação das áreas residenciais e industriais. Hoje, há uma oportunidade real para que o planejamento das cidades reduza os níveis de doenças não transmissíveis e acidentes, promovendo assim cada vez mais saúde e bem-estar”, afirma o autor da série, Professor Billie Giles-Corti, da Universidade de Melbourne, Austrália.

Os autores da série identificaram melhorias possíveis de serem implantadas nas cidades que, juntas, incentivam a caminhada, o ciclismo e a utilização de transportes públicos. Lojas e serviços mais próximos de bairros residenciais e a maior oferta de postos de trabalho próximos às casas das pessoas seriam investimentos em planejamento urbano que teriam alterações significativas na dinâmica das cidades.

Professor Mark Stevenson da Universidade de Melbourne e seus colegas conceberam um “modelo de cidades compactas”, onde a densidade de uso da terra aumentaria em 30%, a distância média de transporte público seria reduzida em 30%, e a diversidade de uso da terra aumentaria em 30%. Eles também previram uma mudança de 10% de carros para bicicletas ou caminhadas – meta semelhante ao de políticas em muitas cidades europeias, como Zurique.

O modelo foi aplicado em seis cidades: Melbourne, Londres, Boston, São Paulo, Copenhagen e Deli. Ganhos em saúde foram previstos em todas as cidades, com o maior efeito em redução das taxas de doenças cardiovasculares. Além disso, todas as cidades teriam aumentos em atividade física e redução da poluição.

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