Maior parte do fogo atinge vegetação nativa; iniciativa da sociedade civil lançada hoje (3/12) mapeia cicatrizes de queimada em todo o território.

Nos últimos 20 anos, 1,5 milhão de quilômetros quadrados do Brasil, ou cerca de 17,5% de seu território, queimou pelo menos uma vez. É quase toda a região Nordeste. Quando pegou fogo, a maior parte da área, 68%, estava coberta por vegetação nativa, enquanto 32% era usada para agropecuária, incluindo atividades como limpeza de pasto, roçado e terrenos recém-desmatados. Em média, uma área de 177 mil km2 queima todo ano, ou 2,1% do país.

Os dados inéditos fazem parte de uma iniciativa lançada hoje (3/12), o MapBiomas Fogo. Pela primeira vez, são consolidadas as informações sobre a área queimada a cada ano no país, de 2000 a 2019, com localização, frequência e o tipo de cobertura e uso da terra associado, como floresta, savana, agricultura ou pasto, entre outros. Ele faz parte da 5ª coleção anual de mapas de cobertura e uso do solo do Brasil do projeto MapBiomas, disponível em http://plataforma.mapbiomas.org.

Mais de 330 mil km² das florestas existentes hoje no Brasil pegaram fogo nos últimos 20 anos e dessas, 195 mil km2 (59%) queimaram duas vezes ou mais. “O incêndio em florestas tropicais não é natural. Ele é causado principalmente pela ação humana alimentada por um ambiente mais seco, que faz o fogo escapar de um pasto ou de uma área desmatada, por exemplo, e entrar na mata”, explica a diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), Ane Alencar, coordenadora do grupo que fez o trabalho. “A frequência alta em algumas regiões reforça o papel do homem nesse processo de degradação.”

É o caso da Amazônia: 28,7% da área total queimada em 20 anos foi registrada ali, num ambiente onde o fogo deveria ser raro – metade dos 427 mil km2afetados queimou mais de uma vez num mesmo lugar. Sem o homem, o fogo neste bioma ocorre a cada 500 a mil anos.

Em termos de área, o Cerrado foi o bioma mais atingido no período: 41% de sua extensão foi afetada pelo fogo pelo menos uma vez, e 76% do que queimou ali era vegetação nativa. “O Cerrado, diferentemente da Amazônia, é um bioma que evoluiu com o fogo. Ainda assim, as transformações na paisagem podem ter impacto na incidência das queimadas”, explica Alencar.

Quando se observam os aspectos fundiários, 59% da área queimada ao longo dos últimos 20 anos estava dentro de áreas privadas, 18% em áreas protegidas e 6% em assentamentos.

Alta em 2019

No último ano, foram queimados mais de 203 mil km2, o que representa 2,4% do território, sendo que 72% aconteceu em vegetação nativa e 28% em locais de uso agropecuário. A área queimada em 2019 foi 55% maior do que em 2018, quando as cicatrizes de fogo somaram 130,5 mil km2.

Quando olhamos o crescimento por bioma, o Pantanal apresentou um aumento de inacreditáveis 996% de área queimada em 2019 em comparação com 2018. Na Amazônia, a área queimada cresceu 65%. No Cerrado, a expansão da área atingida pelo fogo foi de 40%.

“O mapeamento é fundamental para entender o regime de fogo no Brasil, que leva à degradação das vegetações nativas e tem impacto na saúde das pessoas, nas mudanças climáticas, na biodiversidade e na economia”, afirma o coordenador do MapBiomas, Tasso Azevedo.

A plataforma do MapBiomas Fogo vai disponibilizar os dados de cicatrizes de fogo a cada ano, desde 2000 a 2019, indicando a cobertura de uso do solo afetada. Também são disponibilizados dados de áreas acumuladas e frequência de cicatrizes para cada um dos biomas, estados, municípios, bacias hidrográficas e áreas protegidas do Brasil.

O MapBiomas é uma iniciativa multi-institucional, que envolve universidades, ONGs e empresas de tecnologia, focada em monitorar as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil. Esta plataforma é hoje a mais completa, atualizada e detalhada base de dados espaciais de uso da terra em um país disponível no mundo. Outras iniciativas MapBiomas estão em desenvolvimento na Indonésia, toda a Pan-Amazônia, além de Argentina, Paraguai, Bolívia e Uruguai. Todos os dados, mapas, método e códigos do MapBiomas são disponibilizados de forma pública e gratuita no site da iniciativa: mapbiomas.org