09/01/2013

Não Utilizar Punição Corporal, mas Consequências Lógicas e ser um Modelo Moral, 10° e 11° Princípios para Educação Positiva.

Mariana de Azevedo Mattos

“Esquecemos o que ouvimos; lembramos do que vemos e aprendemos o que fazemos”, Confúcio.

As crianças aprendem as regras estabelecidas pela família e o que vivenciam, portanto, o exemplo e o modelo dos pais são copiados e fundamentais na educação dos filhos. Enquanto os filhos são pequenos e em formação, não somos livres para fazer o que bem entendemos, mas sim devemos responder por nossas ações e atitudes na tentativa de dar exemplo moral e educativo. Ensinamos o tempo todo como resolver problemas, lidar com frustrações, se comunicar e tratar as pessoas. As crianças absorvem todas as informações importantes em seu entorno para construir a rede de repertórios comportamentais que irão utilizar em determinadas situações durante a vida. O cérebro está pronto para armazenar e manipular quaisquer informações, mas as informações chegam através da interação com o ambiente familiar, social e cultural. O aprendizado envolve comportamentos abertos (ações, reações corporais) e encobertos (sentimentos, pensamentos). Portanto, na hora de educar, a ação e o exemplo de determinados comportamentos podem falar mais que palavras!

Na teoria tudo parece mais fácil, não é mesmo? Mas na hora de pôr essas dicas em prática a gente se complica e acaba fazendo o que estamos mais habituados, ou seja, tomamos atitudes mais imediatistas e impulsivas. Por exemplo, quando os filhos fazem malcriação ou enfrentam os pais além do limite, podem acabar sendo punidos com um tapa ou um beliscão. A agressão, por um lado, alivia imediatamente a raiva dos pais, mas por outro são aversivos para a criança, e não cumprem a função de substituir comportamentos inadequados por bons comportamentos. Isto acontece porque a punição (diminuição da frequência de um comportamento) decorrente da agressão não tem efeito duradouro e via de regra, só se manifesta na presença do agressor. Além disso, a violência física ainda ensina às crianças que quando irritadas e com raiva “podem” agredir os outros. Atualmente, sabemos que a agressão é totalmente desnecessária e prejudicial à formação da criança e do adolescente.

No ano passado, um grupo de pesquisadores dos EUA, Tailândia e Quênia 1, publicou pesquisa sobre o uso de agressão corporal por parte dos pais em crianças entre 2 e 4 anos.  Envolveram-se no estudo 30.000 famílias de 24 países em desenvolvimento, e concluiu-se que grande parte dos pais utiliza agressão corporal para tentar administrar o comportamento dos filhos. No entanto, não existem evidências de que essa atitude punitiva dos pais resulte em melhor comportamento a longo prazo (com exceção da obtenção de obediência imediata). Por outro lado, há várias pesquisas sugerindo que a agressão corporal tem como consequência involuntária aumentar os problemas comportamentais futuros das crianças ao invés de diminuí-los. O resultado das pesquisas citadas reforça nossa hipótese, uma vez que a punição pode funcionar a curto prazo, mas com o passar do tempo o comportamento de inadequação piora. Além disso, os pesquisadores destacaram a questão ética e moral em relação a eliminação da violência contra as crianças.

A criança cria auto-regras a partir das regras convencionais e consequências naturais, lógicas ou arbitrárias. Auto-regras são verdades preestabelecidas que guiam o comportamento da pessoa e consequência natural é definida como a situação em que, dependendo de como a criança se comporta, o próprio ambiente a pune mesmo sem a interferência dos pais. Por exemplo, se a criança pula do sofá e se machuca ou passa correndo de bicicleta na lombada e cai, ou fica brincando com a comida e derrama suco no prato, ou demora no banho e perde o filme, enfim as consequências naturais são óbvias, e frequentemente as crianças aprendem rápido com elas. Portanto, quando seu filho se machucar por alguma imprudência não precisa brigar ou botar de castigo, apenas a dor e o susto da situação serão suficientes para que aprenda o que não deve fazer. No entanto, algumas consequências naturais podem não ser tão óbvias para nossos filhos, incluindo os adolescentes, mas podem ser efetivas uma vez que os adultos ajudem as crianças a entendê-las. Por exemplo, o distanciamento de amigos ou o fracasso em mantê-los, a falta de confiança ou perda do respeito pelas pessoas, ou ainda, a possibilidade de ser excluído do grupo representam contextos em que as consequências naturais não são tão obvias, como em casos mais concretos descritos anteriormente. Muitas vezes, o afastamento de colegas e amigos é interpretado pelas crianças como “culpa” dos outros, em virtude do comportamento “egoísta” e “chato” deles. As crianças têm dificuldade de perceber que a responsabilidade do afastamento ou eventualmente do bullying, também é delas, e não só  dos outros.

As consequências lógicas são estabelecidas para alcançar determinados comportamentos adequados e torná-la responsável por seu próprio comportamento. Mais importante para o esquema de consequências lógicas dar certo, é lembrar das consequências positivas quando as regras forem cumpridas. Se tudo correr como combinado, as crianças precisam ser reforçadas com elogios, carinho ou pequenos “prazeres”. Por outro lado, se a criança não cumprí-las (hora de dormir ou de tomar banho, fazer deveres, se comportar na mesa, portar-se bem com as visitas e/ou amigos…etc.) vai precisar administrar as consequências negativas relacionadas ao comportamento inadequado como, por exemplo, ficar sem o horário permitido de TV ou computador, ficar estudando quando poderia brincar, enfim, deverá se responsabilizar por suas ações e, se for o caso,  perder algum tipo de “prazer” ao invés de ser punido com agressões físicas ou verbais.

A prática de educar por agressão pode ter efeitos colaterais perigosos, tais como: o hábito de mentir, culpar os outros por seus atos, ser irresponsável, não ter confiança nos adultos, transgredir frente as figuras de autoridade, não ter empatia, remorso ou culpa, ressentimento e raiva, usar retaliação e agressão, ter sentimento de revolta, além de problemas emocionais, baixa auto-estima, falta de motivação e confiança em si mesmo.

Portanto, a maneira pela qual a criança é educada e aprende a se comportar reflete seus valores pessoais, éticos e morais. Nas crianças, esses atributos constituem o alicerce para o equilíbrio emocional e psicológico que irá guiá-las em suas decisões e escolhas, sua confiança e resiliência, seu sucesso e autonomia. A dinâmica familiar é um exercício, um ensaio para a vida, isto é, o que aprendemos através das relações familiares provavelmente será incorporado às situações da vida profissional e social. Todas as nossas escolhas têm consequências naturais e lógicas, positivas ou negativas, imediatas ou a longo prazo, e precisam ser ensinadas e exercitadas desde tenra idade. Desta forma, estaremos preparando nossos filhos para o futuro com sucesso e autonomia.

Referências e para saber mais:

Punição Corporal:

1JENNIFER E. LANSFORD, PhD 2SOMBAT TAPANYA, PhD 3PAUL ODHIAMBO OBURU, PhD. 1Duke University, Center for Child and Family Policy, EUA 2Chiang Mai University, Department of Psychiatry, TAILÂNDIA 3Maseno University, QUÊNIA. “Enciclopédia sobre o Desenvolvimento na Primeira Infância” 1 ©2011 CEECD / SKC-ECDLansford JE, Tapanya S, Oburu PO.

Lidia Natalia Dobrianskyj Weber, Ana Paula Viezzer e Olivia Justen Brandenburg. “O uso de palmadas e surras como prática educativa”. Universidade Federal do Paraná. Estudos de Psicologia 2004, 9(2), 227-237.

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