Muito antes de aprendermos a ler palavras aprendemos a “ler” pessoas. Desde pequenos estamos constantemente lendo as ações, gestos e faces uns dos outros, buscando entender o estado mental e as emoções alheias. Isso é o que chamamos empatia ou, no meio científico, teoria da mente — a capacidade de se colocar no lugar dos outros e imaginar o que estariam pensando ou sentido. Então somos todos macacos de imitação??? Sim!!! É imitando que exercitamos nosso repertório comportamental e aprendemos como se comportar em momentos de medo, tristeza, frustração, surpresa ou alegria.

A teoria da mente se desenvolve ao longo dos 5 primeiros anos de vida, quando as crianças começam a entender explicitamente que as pessoas podem ter crenças diferentes das suas. A compreensão dos sentimentos alheios tem papel crítico na interação social, possibilita inferências sobre o desejo do outro e previsões sobre como ele poderia se comportar, para então ajustar ou modificar nosso próprio comportamento de maneira adequada à situação. Por exemplo, quando conversamos sobre algum assunto que achamos interessante, mas percebemos que o outro não demonstra o mesmo interesse, tratamos de mudar de assunto rapidinho! Caso contrário, estaremos no grupo dos chatos ou inconvenientes! Como as relações pessoais são muito dinâmicas, a empatia é o ingrediente chave para o sucesso e o equilíbrio social.

Desde cedo, falamos para nossos filhos; vamos lá, um de cada vez! Tem que dividir! Assim como você, o amiguinho também quer jogar! Não pega toda a batata, seus irmãos também gostam! Não empurra! Você não gostaria que te empurrassem!… Enfim, é preciso exercitar o “cérebro social” para criarmos crianças felizes socialmente e, consequentemente, mais saudáveis pessoalmente! Isso mesmo, pessoalmente! Um estudo conduzido pela psicóloga americana Patrícia Kuhl com bebês de 9 meses, mostrou que eles são capazes de aprender a distinguir certos sons do mandarim apenas quando expostos à professora chinesa em pessoa. Curiosamente, os bebês que foram expostos a mesma professora, porém via vídeo conferência ou gravador, não foram capazes de distingui-los!

O conhecimento de como o cérebro se desenvolve e aprende tem impacto profundo na educação do futuro! De acordo com os achados de Khul, de nada adianta DVDs educativos para bebês, assim como robôs desenvolvidos para fazer papel de babá. Durante a infância a presença da pessoa faz toda a diferença. Será que robôs programados para acompanhar idosos serão tão companheiros como amigos reais? Será que a interação social com robôs traz felicidade da mesma maneira que os relacionamentos pessoais? Provavelmente não! Mas são questões ainda em aberto que precisam ser melhor investigadas. Se um dia os robôs forem capazes de “ler” pessoas, eles serão humanos?!

Referências:
Kuhl, P.K., Tsao, F.M., and Liu, H.M. (2003). Proc. Natl. Acad. Sci. USA 100, 9096–9101.
Sarah-Jayne Blakemore. (2010). Neuron 65, March 25. Elsevier Inc, 744-747