Será que tanta tecnologia desde a infância estimula ou prejudica funções como atenção, memória, comunicação, sentimentos, empatia, fraternidade, compaixão e solidariedade? Sabemos que o cérebro é extremamente plástico e que é modelado a partir da interação da genética e do ambiente, ou seja, de acordo com as experiências vivenciadas ao longo do desenvolvimento. De fato a tecnologia altera os circuitos neurais, o que nos remete a pergunta: os cérebros lapidados pela tecnologia digital e virtual estarão correspondendo a uma evolução em termos ontogenéticos ou a um perigo que ameaça a espécie humana do futuro?

Será que o cérebro consegue diferenciar a fantasia da realidade? Quando a criança está jogando um “game” em que o cenário é um tiroteio entre polícia e bandidos no meio de uma favela, o cérebro é estimulado como se a cena fosse real. Claro que a criança tem consciência que a situação não é real, mas em relação à intenção, programação e execução dos movimentos, o circuito cerebral ativado é essencialmente o mesmo. Por essa linha de raciocínio, o impacto dos play stations, game boys e internet na maneira de pensar e agir das crianças e adolescentes  poderia ser perturbador.

Muitas vezes precisamos tirar as crianças da “tomada” para conseguirmos sua atenção, uma vez que o mundo virtual parece bem mais prazeroso: as recompensas são imediatas e as atitudes e comportamentos não são questionados ou punidos. No vídeo game, quando o herói é morto, há a possibilidade de outras vidas e outras chances, como se o jogador fosse invencível, visto que pode continuar jogando até conseguir vencer! Realmente incrível e super motivante, tendo em vista o perfil dos jogadores-mirins e seus cérebros ávidos por poder, falta de limites e tropismo por gratificações imediatas!

Ok! Estão ficando assustados? Eu também! Então vamos ver o que os cientistas e pesquisadores da área nos dizem sobre isso. As pesquisas atuais indicam razões tanto para o otimismo, quanto para a preocupação, dependendo do conteúdo da tecnologia, do contexto em que a tecnologia coloca o usuário e o estágio de desenvolvimento do usuário.

Tanto estudos de Lloyd e colegas sobre o impacto do uso da tecnologia nas relações sociais, no envolvimento acadêmico e no estilo de vida saudável, quanto os de Bavelier e colaboradores, mostram efeitos tanto positivos quanto negativos. Dependendo do tempo de uso e conteúdo envolvido, os efeitos podem ser benéficos; otimizando o aprendizado, treinando habilidades e conectando pessoas, ou maléficos; atrapalhando o rendimento acadêmico, causando isolamento social e sedentarismo. Lloyd alerta que quanto mais tempo gasto com tecnologias, tais como game boy, DVD ou internet,  mais sedentária e menos saudável é a pessoa.

Portanto, mais uma vez o bom senso fala mais alto e a resposta é dosar!  Como diz o ditado; a diferença entre remédio e veneno esta apenas na dose!

Referências:

Daphne Bavelier, C. Shawn Green, and Matthew W. G. Dye. Children, Wired: For Better and for Worse. Neuron 67, September 9, 2010. 692 – 701

Jan M. Lioyd, Laura A. Dean, and Diane L. Cooper. Students’ Technology Use and Its Effects on Peer Relationships, Academic Involvement, and Healthy Lifestyles. NASPA Journal, 2007, Vol. 44, n3.