Imaginemos uma cena daquelas de deixar qualquer pai e mãe com vontade de sumir do mapa; seu filho furioso, gritando e esperneando, chutando a cadeira da loja porque você não lhe comprou um doce! “Cheio de vontades”, “quer chamar atenção”, manipulador, desafiador, mal educado… e assim por diante, provavelmente, seriam os rótulos e pensamentos à respeito dessa criança ou dessa atitude. Mas será que as crianças realmente se comportam dessa maneira para chamar atenção? Ou por falta de limites? Segundo o professor de psicologia da Faculdade de Medicina de Harvard e autor do livro “The Explosive Child”, Dr. Ross Greene, a resposta é não. Segundo ele, a criança é explosiva porque ainda não tem recursos cognitivos e emocionais bem desenvolvidos para reagir da forma melhor adaptativa. As crianças não escolhem ser explosivas, elas apresentam atrasos no desenvolvimento das habilidades essenciais à flexibilidade e tolerância à frustrações, portanto, essas atitudes não são propositais, intencionais ou planejadas.

Segundo o autor, as crianças progridem quando tem capacidade para isso, em outras palavras, se seu filho tivesse capacidade para se sair bem em determinado contexto, ele se sairia! Um acesso de raiva, assim como outras formas de comportamento mal adaptativo, ocorrem quando as exigências cognitivas em relação a uma pessoa sobrepujam a sua capacidade de corresponder adaptativamente. Quando os próprios pais se vêem frustrados e confusos em relação aos surtos explosivos do filho, com freqüência exigem que a criança dê uma explicação lógica a respeito de seu comportamento. No entanto, seu filho não é a pessoa indicada para pedir explicações. Crianças explosivas raramente tem habilidades suficientes para descrever suas dificuldades com clareza.

Segundo Greene, dentre as habilidades que precisam ser treinadas nessas crianças destacam-se; habilidade de execução, habilidade de processamento da linguagem, habilidade de regulação emocional, habilidade de flexibilidade cognitiva e habilidades sociais. Neste momento, a participação dos pais é fundamental para por em prática o que o Dr. Greene chama de Plano B; isto é, exercer papel de “lobo frontal” dos filhos, realizando as habilidades mentais que, no momento, o filho ainda não tem desenvolvidas.
Existem 3 passos na aplicação do Plano B:

1. Empatia (reconforto)
2. Definição do problema
3. Convite

Como ser empático com seu filho? Basicamente, retirando-lhe a inquietação, repetindo o que ele fala para que, simplesmente, escute as palavras que esta utilizando. Por exemplo: (filho) tenho medo que o filme seja muito assustador; (mãe) você esta com medo de que o filme seja muito assustador? –mãe promovendo uma relação de empatia.

Se a criança não explicitar a sua inquietação você deve investigar e perguntar diretamente; Por exemplo; (filho) eu não vou ao cinema com vocês!; (mãe) Você não vai ao cinema conosco, o que houve? (filho) Eu não gosto de filme de terror – Aqui, houve então a definição do problema.

(Mãe) Ok, você não é obrigado a assistir filme de terror, mas seu irmão quer muito ir e não posso deixá-lo sozinho… você teria alguma idéia do que poderíamos fazer para resolver isso sem deixar ninguém triste? – Aí viria o convite.

(Filho) Podemos ver outro filme que não seja de terror? (mãe) Claro! Vamos procurar outro que agrade aos dois!

É claro que no meio do acesso de raiva não podemos colocar o Plano B em ação. Neste caso, convém contê-lo de maneira firme e tentar acalmá-lo. O Plano B é para ser exercitado diariamente com o objetivo de evitar as explosões de raiva e treinar as habilidades pouco desenvolvidas. No momento em que essas habilidades forem se desenvolvendo e se tornando consistentes, seu filho irá destituí-lo do cargo de “substituto de lobo frontal” para então agir com o próprio!

Muito trabalhoso? Exige paciência?… Mas quem disse que educar é fácil?

Para saber mais:

The Explosive Child: A New Approach for Understanding and Parenting Easily Frustrated, Chronically Inflexible Children Ross Greene