Dia internacional da MULHER. Mulheres sábias e deusas; frágeis e imponderadas; generosas e batalhantes; afetuosas e combativas. Mulheres que fazem a nossa história  e nos orgulham. Mulheres que nos dão a vida.

No entanto, o valor das mulheres para a sociedade, o conhecimento e as oportunidades da era moderna em que vivemos não condizem com a desonra, a tristeza e a afronta dos números de que ainda padecem as mulheres.

O Brasil não cumprirá os Objetivos do Milênio (ODM) que determinam a igualdade do gênero e a redução da mortalidade materna, condições necessárias para superar a pobreza, a fome e a doença.

Segundo o Censo 2010, o nível de instrução das mulheres continuou mais elevado que o dos homens, houve a redução da fecundidade – 1,86 filho por mulher – e elas ganharam mais espaço no mercado de trabalho, embora longe do ideal, sua participação no mercado de trabalho formal representou 45,4% em 2011. As mulheres são maioria no emprego informal, caracterizado pela falta de benefícios e de segurança, e, portanto, mais vulneráveis.

Houve um aumento impressionante na proporção de famílias sob responsabilidade exclusiva da mulher (37,3% em 2010 contra 22,2%, em 2000). Além disso, as mulheres já estão à frente de 38,7% dos lares brasileiros. O IBGE aponta que 15,1% dos núcleos familiares são formados por “mãe com filhos”, contra 2,3% de “pai com filhos” e 61,9% de “casal com filhos”.

Apesar dos avanços da mulher na liderança dos lares, a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios mostrou que as mulheres receberam, em 2011, em torno de 70,4% do rendimento de trabalho dos homens. Os homens seguem ganhando por mês 42% mais do que as mulheres – R$1.395 contra R$984 na média. Na mediana (que representa até quanto ganha a metade do segmento analisado), a distância é ainda maior de 50% (R$765 contra R$510).

Segundo a Organização Internacional do Trabalho, as mulheres são responsáveis pela maioria das horas trabalhadas em todo o mundo e a mulher brasileira trabalha  5 horas semanais a mais que os homens. O tempo é calculado levando-se em consideraçãoa jornada fora e dentro de casa. No entanto, ela trabalha 13 horas semanais a mais que o homem dentro de casa, o que inclui as atividades familiares e domésticas. A entrada da mulher no mercado de trabalho não foi acompanhada por uma mudança na divisão sexual do trabalho. Esquecidas de si mesmas, acabam por postergar um debate que se faz urgente: a divisão desigual das responsabilidades da família.

Temos um bom estoque de disparidades entre homens e mulheres, e ainda o pior, a discriminação, herança da cultura patriarcal e da ignorância machista, arraigada e enraizada, custe o que custar. O trabalho feminino é socialmente desvalorizado e não reconhecido.

A mulher está adoecendo mais que o homem

Multiplicam-se ao redor do mundo pesquisas que apontam que as mulheres sofrem mais com o estresse do que os homens. De acordo com pesquisa recente da International Stress Management Association (Isma), 70% dos brasileiros sofrem de estresse no trabalho. Em todas as faixas etárias são elas as mais afetadas pelo problema.

Na sua busca de autonomia e igualdade de direitos, as mulheres se lançaram no mercado de trabalho sem, no entanto, se desvencilharem das atividades domésticas e familiares. Em meio a perdas e ganhos, nem sempre tão visíveis, o que de fato tem ocorrido é uma sobrecarga de trabalho que agride seu corpo, e um imenso rol de sentimentos ambíguos que as fazem se sentir culpadas por desafiarem as regras e os valores de uma cultura patriarcal, que as pressionam para não se afastarem das tarefas do lar. Essa mesma cultura, que somente as reconhece como trabalhadoras quando estiverem no mercado de trabalho, encontrou, nesse mesmo mercado, uma nova forma de oprimí-las e pressioná-las, o que as tem levado ao estresse e ao consequente adoecimento físico e psíquico.

No Brasil, após o período de menopausa, o número de mulheres e homens que sofrem de infarto é o mesmo. Segundo a Secretaria de Saúde de São Paulo, o número de mulheres internadas por infarto do coração no aumentou 34% nos últimos quatro anos e elas estão morrendo mais de infarto do que os homens.

A violência contra mulheres – indignação e repugnância

A Organização Mundial de Saúde revelou que 1 em cada 3 mulheres no mundo são vítimas de violência sexual ou física e 1 em cada 14 mulheres sofreram abuso sexual. Trata-se de um problema de saúde de proporções epidêmicas, sem diferença entre os continentes, camadas sociais ou raça. Outro dado alarmante é que uma em cada três meninas no mundo em desenvolvimento se casa antes dos 18 anos, apesar do matrimônio infantil ser ilegal em 158 países.

A violência parte dos homens, seus companheiros. O relatório revelou que quase 38% das mulheres vítimas de assassinato foram mortas por seus parceiros e 42% das mulheres vítimas de violência vivem suas consequências, que as enfraquecem mais, como ferimentos e sequelas, tais como fraturas, hematomas, complicações no parto, depressão e outros distúrbios mentais.

Companheiros a quem elas lhes confiam a vida, geram seus filhos, e partilham o teto tornam-se seus maiores desesperos e pesadelos. Homens ou animais ferozes?

A mortalidade materna – descaso e tristeza

O Brasil não cumprirá a meta de redução da mortalidade materna. A mortalidade materna é aquela que ocorre durante a gravidez, aborto ou parto, ou no puerpério – dentro de um período de 42 dias após o término da gestação.

A taxa de mortalidade materna máxima recomendada pela Organização Panamericana de Saúde é de 20 casos a cada 100 mil nascidos vivos. Em 2000, a ONU determinou que até 2015, os países deveriam reduzir a mortalidade materna para 35 óbitos por 100 mil nascidos vivos. No Brasil, em 2010, esse número está próximo de 68,2 óbitos, segundo a estimativa da Rede Interagencial de Informações para a Saúde, longe de alcançar a meta – a metade de seus números.

No mundo, segundo o Fundo de População das Nações Unidas, cerca de 800 mulheres morrem diariamente durante o parto. Mais de 200 milhões de mulheres não conseguem métodos de contracepção – o acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva, incluindo o planeamento familiar, poderia reduzir em 27% o número de mortes maternas por ano e o número de gravidezes involuntárias de 75 milhões para 22 milhões.

Para garantir uma boa saúde materna é necessário disponibilizar serviços de saúde reprodutiva de qualidade de modo a assegurar uma passagem segura das mulheres pela gestação. As principais causas de mortalidade materna nas regiões em desenvolvimento são as hemorragias e a hipertensão, que, em conjunto, são responsáveis por metade de todas as mortes e, que, em sua grande maioria, simples e inacreditavelmente, poderia ser evitada.

Greenhalch, sobre a mutilação genital feminina, desabafa sobre a barbárie vivida ainda hoje por mulheres e meninas, que perdem o direito do prazer sexual, de forma não higiênica e muitas vezes sangram até a morte, em rituais comemorados em suas aldeias ou em países distantes e muito desenvolvidos como a Inglaterra – simplesmente pela “persistência de tradições culturais arraigadas, que ainda hoje encontram respaldo em sociedades patriarcais”. Chama atenção de ”como a barbárie não faz a menor cerimônia em conviver com o mundo civilizado”. A OMS calcula em 125 milhões o número de mulheres e meninas mutiladas.

Quem são os infelizes responsáveis por toda esta violência contra as mulheres?  Parece todo o exposto ter as mesmas raízes, a sociedade patriarcal, a sociedade dos homens. Atualmente, não há nenhum país em que as mulheres são iguais aos homens no poder político e econômico. Em 2010, apenas nove dos 151 chefes de Estado eleitos (6%) e 11 dos 192 chefes de governo (6%) eram mulheres.  Em âmbito mundial, apenas um em cada quatro cargos de quadros superiores ou gestores é de uma mulher. Cerca de 75 a 90% dos altos cargos nas esferas pública e privada são ocupados por homens, a quem cabe o poder decisório e têm em suas mãos as transformações sociais. Como reverter este ciclo vicioso do poder dos homens e da discriminação e violência contra as mulheres?

Seria necessário a determinação dos Objetivos do Milênio pelo presidente da ONU,  para o Brasil “galopar” contra o tempo para melhorar a saúde reprodutiva e diminuir o número de mortes injustas, descabidas e  indignas das nossas mulheres?  Ouvir dos órgãos soberanos em saúde que a maioria delas poderia ter sido evitada? As mulheres são, em absoluta transparência, vítimas do descaso e desinteresse, da irresponsabilidade dos nossos governantes e da corrupção que devasta o país. É uma vergonha escandalosa, uma tristeza avassaladora!

Oxalá consigamos, nós mulheres, descobrir logo o caminho menos doloroso para conquistar a igualdade, sem a qual não é possível alcançar a liberdade, o respeito e a justiça social que almejamos!

Parabéns a todas as mulheres!

Evangelina Vormittag é Doutora em Medicina pela FMUSP e Diretora Presidente do Instituto Saúde e Sustentabilidade