Uma das consequências importantes da urbanização é a mobilidade urbana, que por sua vez, acarreta impactos significativos que precisam ser minimizados, pois provoca grandes danos à saúde pública e ao meio ambiente. Os sistemas de transporte são a principal fonte de emissão de gases efeito estufa, poluentes atmosféricos, ruído e vibração nas regiões urbanas. O ar poluído hoje é a primeira causa ambiental de mortes no mundo, ultrapassando a água contaminada e doenças infecciosas. A literatura mundial relaciona a poluição do ar à redução da expectativa de vida; maior risco de infarto do coração, pneumonia, bronquite crônica, asma e câncer do pulmão. Os efeitos adversos dos poluentes atmosféricos manifestam-se com maior intensidade em crianças, idosos, indivíduos portadores de doenças e, especialmente, nos segmentos mais desfavorecidos do ponto de vista socioeconômico.

Além disso, parte substancial do solo das cidades tem sido progressivamente alocada para pavimento de ruas e avenidas, chegando em torno de 30% a 40% da área central das grandes cidades brasileiras ser ocupada pela malha viária. O calor retido por essas superfícies e gerado pelos veículos contribue para o aumento da temperatura ambiente por meio do fenômeno conhecido como “ilhas urbanas de calor” no coração dos grandes conglomerados urbanos, que afetam o microclima nas cidades. Apesar da pequena escala de tais gradientes em temperatura e clima, a alta densidade de população em áreas metropolitanas leva um grande número de indivíduos a risco dentro de uma variação limitada de espaço, as ilhas de calor contrapõem diferenças de temperaturas em diversas regiões, agravam as tempestades, que somadas à impermeabilização, provocam inundações, deslizamentos em encostas, acidentes, lesões e doenças infecciosas.

Somando-se a esses fatores, o alto nível de ruídos na cidade provocado pelos meios de transporte corrobora para o prejuízo da acuidade auditiva, do sono, alto nível de estresse e depressão e, indubitavelmente do prejuízo a produtividade.

Como as árvores ou áreas verdes protegem a saúde dos moradores das cidades?
A contribuição das árvores ou áreas verdes para a proteção da saúde nas cidades deve-se a dois fatores principais, o equilíbrio de microclima e a purificação do ar.

Diversas publicações científicas têm demonstrado o importante papel das áreas verdes para a saúde. Uma revisão sistemática de 102 artigos nos últimos cinco anos, publicada por Zupanic em março de 2015, vem corroborar para este entendimento e apoiar bases científicas aos gestores públicos, tomadores de decisão.

 O equilíbrio de microclima: A presença de áreas verdes nas cidades traz uma considerável melhoria e estabilidade microclimática devido a diversos aspectos como: redução do calor, das amplitudes térmicas e da insolação direta; ampliação das taxas de evapotranspiração; diminuição da velocidade dos ventos e maior proteção dos pedestres às intemperes, conformando um clima mais saudável aos seus habitantes. A diferença de temperatura entre distritos na cidade pode chegar a mais de 4ºC diante das ilhas de calor na região mais central e áreas com maior cobertura vegetal na periferia. De modo geral, a cidade é predominantemente quente, onde há mais pessoas morando, as temperaturas são mais elevadas. Vive-se na cidade de São Paulo atualmente um clima de deserto: quente e seco durante o dia e frio e seco durante a noite. O excesso de calor gerado pela ausência arbórea afeta significativamente o metabolismo humano, que ao buscar a compensação térmica causa transtornos como desidratação e falta de apetite, com a consequente perda de energia e o aumento da fadiga. Em crianças e idosos, principalmente, esse desequilíbrio pode ser fatal.

As árvores refrescam o ambiente na medida em que modificam o grau de umidade local oriunda da liberação do vapor d’água para a atmosfera por meio do processo de evapotranspiração, gerando a diminuição da produção de calor superficial. E ainda, as superfícies foliares das árvores absorvem e refletem uma parte da radiação solar que seria transformada em energia térmica (calor) se incidissem diretamente no solo asfaltado.

Assim, a umidificação do ar e a diminuição da temperatura equilibram o microclima, de forma que atenuam e reduzem as tempestades e suas consequências como enchentes e desastres.

A purificação do ar : Um dos benefícios mais importantes da presença de áreas verdes, produzem oxigênio por meio do processo de fotossíntese, reduzindo gases de efeito estufa ou ainda captando parte das partículas finas em suspensão no ar.

Ao realizar esse processo de absorção dos gases de efeito estufa, as árvores contribuem no combate da intensificação das mudanças climáticas à escala global. Zonas arborizadas nas cidades podem ser consideradas sumidouros de gases de efeito estufa. Atualmente cerca de 130 árvores de 30 anos são necessárias para fixar os 4.500 kg de CO2 que produz um carro que percorreu em média 200.000 km².

A cobertura vegetal pode absorver grande quantidade de material particulado em suspensão e filtrar elementos tóxicos, como enxofre, cádmio e manganês, que ficam retidos em seus troncos. Os benefícios de áreas verdes e sua valoração econômica tem sido motivo de estudos: a melhoria da qualidade do ar e o sequestro de Carbono pela vegetação foram valorados e analisados demonstrando seu custo-efetividade (redução de custos em saúde). Nowalk e cols modelaram a remoção total da poluição do ar por árvores e arbustos urbanos em 55 cidades americanas: cerca de 711 mil toneladas, estimada em 3,8 milhões de dólares, o que significa que plantar árvores, manter as existentes e cuidar delas, pode ser considerada, por um gestor público, da área ambiental, uma decisão certa para o combate da poluição do ar nas cidades.

Surpreendente o fato demonstrado por estudos, que indivíduos que residem próximos às áreas verdes nas cidades estão mais protegidos, em distância, das doenças cardiovasculares fatais. A medida em que a moradia vai se distanciando, em raios de metros, da área verde, aumenta-se o risco dos moradores terem infarto do coração. E quanto mais densa a área verde, maior a proteção. Há evidências que a proximidade às áreas verdes traz outros inúmeros benefícios à saúde, físicos, psicológicos, mentais e sociais como a tendência a comportamentos mais saudáveis: o convívio social e a prática de exercícios físicos. Estudos relatam benefícios como melhora das funções cognitivas, diminuição de depressão, demência e doença de Alzheimer, alívio de estresse, melhora do sono, redução da pressão arterial, redução do diabetes, doença cardiovascular e derrame cerebral. Outro benefício muito importante é a melhoria da função do sistema imunológico e suscetibilidade a doenças.

Um gestor de saúde pode optar por áreas verdes como uma política pública de saúde destinada a promover estilos de vida saudáveis em centros urbanos e proteção aos riscos de doença cardiovascular, grave consequência dos efeitos da urbanização em saúde.