Todo mundo sabe que abusar do álcool prejudica a saúde, mas quantos anos bebendo você acha que são necessários para, visivelmente, afetar seu cérebro? Dez anos? Vinte? Infelizmente não! Na verdade, os cientistas já podem ver mudanças no cérebro dos adolescentes que bebem ocasionalmente. A “baladinha” com amigos pode ser o ambiente ideal para experimentar uma bebida alcoólica. Uma vez ou outra a turma da escola sai para dançar e se divertir e, para o cérebro adolescente, que já não vê graça nem tem prazer em coisas da infância, a companhia do álcool PARECE potencializar a diversão e torná-la mais interessante. Nessa transição da infância para idade adulta, o cérebro sofre transformações que alteram as regiões responsáveis pelo prazer e satisfação, tornando-as mais sensíveis ao novo, proibido, diferente e desafiador!

Prova desse interesse por novidades e novas sensações, foi apresentada durante o seminário “Álcool, Tabaco e a Publicidade”, promovido pela Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), na Unifesp, em São Paulo no dia 26 de maio de 2010. O estudo mostrou que jovens entre 14 e 17 anos consomem 6% de todo o consumo anual de álcool do país. “O número é preocupante, já que a Lei proíbe o consumo de bebidas alcoólicas por menores de 18 anos”, comenta Raul Caetano, psiquiatra brasileiro radicado nos Estados Unidos, onde é diretor regional e professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade do Texas, e veio ao Brasil exclusivamente para o encontro. “O controle da publicidade de álcool é, também, extremamente central, já que é especialmente dirigida aos homens e aos jovens, justamente os grupos que mais bebem. Além disso, o principal controle em vigor no Brasil, que é a auto-regulamentação, não funciona”, conclui Raul Caetano.
Estudo recente, conduzido por Susan Tapert, pesquisadora do departamento de psiquiatria da Universidade da Califórnia em San Diego, mapeou o cérebro de adolescentes entre 12 a 14 anos que bebiam “ocasionalmente” (beberam 4 ou mais doses em algumas horas, pelo menos uma vez nos últimos 3 meses) e comparou com o de jovens que não bebiam, usando recursos de neuroimagem por ressonância magnética funcional. A Dra. Tapert observou que a “substância branca” do cérebro dos adolescentes, isto é, a região que transmite as informações em forma de sinais, como uma TV à cabo ou um cabo USB do computador, estava alterada quando comparada à dos adolescentes que não bebiam. Transmissão de informações é o que o cérebro faz o tempo todo durante os processos que envolvem memória, atenção, aprendizagem e pensamento.

O que realmente preocupa é que estes adolescentes não eram alcoólatras, e não bebiam todos os dias. Tudo o que fizeram foi beber, pelo menos, quatro (para mulheres) ou cinco (para homens) doses de álcool de uma só vez, no mínimo uma vez em três meses. De fato, a ciência tem demonstrado que o álcool pode “envenenar” os neurônios e alterar a plasticidade do cérebro de adultos que abusam de álcool, e que nos adolescentes esses efeitos podem ser ainda mais profundos, considerando que o cérebro está em franco desenvolvimento e, provavelmente, mais vulnerável aos efeitos nocivos do álcool.

A Dra. Tapert mostra algumas imagens (abaixo) de ressonância magnética do cérebro de adolescentes que bebiam. Os exames são como fatias, onde os pontos vermelhos marcam lugares específicos da substância branca, onde foram encontradas as diferenças entre os jovens que bebem e os que não.


As imagens funcionais acima, mostram como o álcool pode prejudicar as funções mentais de adolescentes durante a execução de tarefa de memória. Enquanto os jovens executavam a tarefa o cérebro estava sendo monitorado “on line”. Do lado esquerdo, vê-se o cérebro de um menino de 15 anos que não bebe e, do lado direito, o cérebro de outro menino da mesma idade que tem problemas com bebida. Comparando o da esquerda com o da direita, percebemos que o cérebro da direita esta menos colorido, o que significa menor atividade.

Resumindo, as principais descobertas feitas até agora pela psiquiatra, revelam que:

– O álcool pode causar danos ao hipocampo, cujo desenvolvimento mais acentuado ocorre a partir do fim da adolescência. Testes mostraram que o álcool deixa mais lentos os neurônios envolvidos na formação de novas memórias, o que pode ser a explicação para lapsos em jovens humanos;

– O nível de atividade cerebral durante testes de memória e atenção realizados com uso de ressonância magnética funcional (que mede a alteração dos níveis de oxigênio no cérebro) foi menor em adolescentes com histórico de bebedeiras;

– Dos adultos que haviam começado a beber antes dos 14 anos, 47% tornaram-se dependentes; entre os que iniciaram o consumo a partir dos 21 anos, o percentual de dependência foi de 9% .”

O exemplo dos pais é decisivo para definir a relação que o jovem terá com a bebida alcoólica (e outras drogas). Apesar de ser um assunto controverso, uma grande parte de pesquisadores concorda que o exemplo da família tem uma grande influência. Uma pesquisa da psicóloga Lídia Weber, da Universidade Federal do Paraná, constatou que cerca de 96% dos filhos com bom relacionamento em família, nunca haviam se drogado. Já entre os que relataram problemas em casa, 59% usavam regularmente drogas como álcool, maconha ou crack. A pesquisa concluiu que há relação direta entre atitudes negativas dos pais e o comportamento destrutivo dos jovens, como envolver-se em brigas, usar drogas e mentir.

E agora a parte mais importante e mais esperada: o que fazer para orientar nossos filhos adolescentes e evitar o consumo de álcool nesta fase?

• Informe, converse e oriente sobre o caráter ilegal, sobre os efeitos nocivos a curto e longo prazo, e as conseqüências de suas escolhas. O adolescente precisa saber que beber nesta fase danifica seu cérebro e sua performance intelectual, mesmo se for só de vez em quando!!!

• Cultive bons hábitos em família; não beba em excesso, não fume, alimente-se bem e de maneira saudável, faça e incentive atividades físicas, crie, propicie e desfrute pequenos prazeres tais como; dar risadas juntos, assistir um bom filme comendo pipoca no sofá, ler e contar histórias, jogar, brincar, preparar uma pizza ou um bolo juntos, enfim, desfrute e aproveite todas as oportunidades de expressar o seu amor através de ações, mesmo que sejam mínimas.

Para pais de crianças que ainda não entraram na adolescência, o que fazer para diminuir os riscos de uso e abuso de substâncias ilegais no futuro?

• Ensine-o a agradecer. Seu filho deve ser grato pelo que tem (sejam pessoas ou objetos) e mostrar reconhecimento pelos outros.

• Cultive o otimismo. Faça-o olhar sempre o lado bom das situações.

• Evite comparações. Quando o vir se comparando com o colega, repita que cada um é bom em algo diferente e ressalte as qualidades dele.

• Aposte em gentilezas. Pode ser para o amigo, o avô, o primo ou até um desconhecido. No começo, você pode precisar “forçar” o seu filho a ser agradável, depois acontecerá naturalmente.

• Conserve relacionamentos. Incentive-o a fazer muitos amigos e ajude-o a cultivá-los.

• Descubra coisas que ele gosta de fazer. Deixe-o se concentrar em algo que lhe dá prazer a ponto de se esquecer do mundo.

• Reviva os momentos bons da vida. Ele curtiu a excursão da escola? Peça-o para desenhar algumas situações, reveja fotos, escreva etc.

• Trace objetivos. Pergunte duas ou três coisas que seu filho gostaria de ter e o ajude a definir metas para chegar ao objetivo, mesmo que seja só uma bola nova ou uma nota maior na prova de português.

• Desenvolva estratégias para superar crises. Se a criança passar por algum estresse ou trauma, ajude-a a se concentrar em vencer a situação, e não ficar ainda mais deprimida com ela.

• Pratique o perdão. O colega mordeu seu filho? Resista ao ímpeto de mandá-lo morder de volta. Ensine-o que ele deve encarar o menino e dizer que não gostou do que aconteceu, mas que está desculpado.

• Pratique a espiritualidade. De acordo com suas crenças espirituais, ainda que elas não envolvam nenhum tipo de Deus, desenvolva com a criança situações em que ocorra a discussão sobre as dimensões da vida, e parem para apreciar as maravilhas ao seu redor.

• Mostre a importância do corpo. Mesmo se a criança não gostar da educação física, precisa entender que o esporte faz bem para a saúde. Um corpo são vai ser ferramenta de muitos sorrisos.

Referências:

http://psychiatry.ucsd.edu/faculty/stapert.html

www.duke.edu/~amwhite

http://www.npr.org

• Sonja Lyubomirsky. Livro “A Ciência da Felicidade – Como Atingir a Felicidade Real e Duradoura” (Ed. Campus/Elsevier)

Para saber mais:

http://www.niaaa.nih.gov/Pages/default.aspx

• Lídia Weber. Livro “Eduque com Carinho” (Ed. Jurua)