As crianças precisam aprender a conviver em grupo, e o primeiro grupo da nossa sociedade é a família! Podemos dizer que a família é um laboratório de aprendizado, onde exercitamos o respeito, a solidariedade, a fraternidade, o autocontrole, a paciência e a disciplina. Disciplinaré mostrar as fronteiras entre o certo e errado, os valores e os limites do respeito. Agindo assim, por um lado, estaremos restringindo e por outro, dando segurança e equilíbrio.

Quando ensinamos regras de maneira consistente, as crianças aprendem a ter autocontrole, disciplina e organização, características fundamentais para o sucesso pessoal e profissional futuro. As práticas educacionais ensinadas na infância são treinos comportamentais e sociais para a vida!

As crianças têm dificuldade em processar e organizar na memória grande quantidade de informação, portanto, na hora de ensinar regras e limites faça com explicações simples e adequadas à idade de seu filho. Ensine que todo comportamento tem consequências positivas ou negativas, e que o não cumprimento das regras terá consequências negativas, enquanto o cumprimento delas levará a consequências positivas. Não adianta ameaçar e não cumprir, ou toda vez que a criança se comportar mal dizer; “da próxima vez vai ter castigo!”. Quanto mais próxima e “contingente” (dentro do contexto) for a consequência melhor será o aprendizado.

A quebra da rotina também pode confundir o comportamento das crianças. Se seu filho precisa dormir em determinada hora pois tem que acordar cedo para a escola no dia seguinte, você não pode fraquejar quando ele pede: “Mãe, deixa eu dormir um pouco mais tarde só hoje, só hoje?” Ceder nestes casos seria sinônimo de inconsistência, ou seja, de regras burláveis. A flexibilidade é válida e importante para adequarmos as regrasà idade da criança/adolescente, e ainda quando eles têm maturidade para entender que regras tem exceções, e nem por isso perdem sua força ou seu valor. A flexibilidade não pode ser entendida como “tudo é possível”, o que gera insegurança e ansiedade.

Imagina uma criança com plenos poderes, imatura e insegura, vai perder o controle e, muitas vezes, se tornar um pequeno tirano. É importante lembrar que quanto menor for a criança melhor ela se adapta às regras e cumpre sem questioná-las. Se você leitor esta pensando que seu filho de 1 ano é muito pequeno para introduzir regras, está muito enganado! Pelo contrário, ele vai adorar! Os bebês e crianças pequenas adoram rotina e previsibilidade, pois trazem segurança e baixam a ansiedade.

As regras precisam ser supervisionadas para ter consequências que devem sempre acompanhar o comportamento, seja ele adequado (positiva) ou inadequado (negativa). Ao cumprir as regras a criança precisa receber elogios e ser valorizada (consequência positiva), o que muitas vezes não ocorre por falta de supervisão, atenção ou esquecimento. Algumas vezes, não elogiamos o bom comportamento partindo do princípio que “não é mais que obrigação”, o que não é verdade. A criança é aprendiz, esta em processo de aprendizado sobre o que é certo e errado, e o que os pais e a sociedade esperam dela, e precisam de tempo para adquirirem este conhecimento. É exatamente através do modelo dos pais e das consequências de seu comportamento que a criança internaliza as regras. O prazer que a consequência positiva gera na criança é ferramenta poderosa para o aprendizado do comportamento adequado. Portanto vamos usá-la!

É curioso notar como temos tendência de chamar mais atenção para o comportamento inadequado, brigando ou criticando, e valorizar pouco o adequado. Como discutimos no artigo anterior, o cérebro infantil aprende melhor por consequências positivas, isto é, elogios e incentivos, enquanto que as críticas negativas não são processadas adequadamente, na medida em que as regiões do cérebro responsáveis pelo autocontrole ainda não estão plenamente desenvolvidas. Portanto, é importante pensar em nossos hábitos na hora de educar.

Atualmente, na dinâmica da família moderna, pais separados ou famílias estendidas, a tarefa de educar e dar limites se tornou ainda mais difícil e árdua. Os pais, muitas vezes, sem tempo ou possibilidade de estar junto aos filhos, aliviam suas “culpas” fazendo vontades, burlando regras, sendo inconsistentes e incoerentes. Sem dúvida que na melhor das intenções! Afinal, no pouco tempo que podem estar juntos pais e filhos querem se sentir amados mas, muitas vezes, amor é confundido com “fazer vontade”, o queé compreensível no contexto familiar, mas complicado no contexto educacional. Como as crianças aprendem por imitação, por regras e consequências na interação com o ambiente e com as pessoas, se na família elas “podem tudo”, na escola também vão se sentir assim e na sociedade também! Portanto, antes de fazer todas as vontades e resolver um problema imediato, pense nas consequência futuras do comportamento de seu filho para ele próprio, para a família e para a sociedade. É no dia-a-dia que ensinamos e moldamos os bons ou maus comportamentos de nossos filhos.

Estudo realizado pelo International Stress Management Association no Brasil (Isma-BR) sobre estresse infantil, mostrou que críticas e desaprovações dos pais aparecem em primeiro lugar no ranking dos estressores, seguidos pelo excesso de atividades, o bullying
e os conflitos familiares. Portanto, como a crítica é fator estressante para a criança, mais um motivo para criarmos novas estratégias para educar, utilizando muito elogio e incentivo, e evitando a crítica. Mas não podemos confundir o comportamento de não criticar com o de aceitar tudo e fazer todas as vontades. Podemos ser exigentes sem sermos críticos…como? Boa pergunta! A resposta é: exercitando os princípios da educação positiva todos os dias. Educar é como qualquer exercício, não é fácil, demanda muita disciplina, paciência e vontade. Quanto mais “praticamos” de maneira correta, com coerência, frequência e consistência, melhores e mais facilmente obtidos serão os resultados.

Sendo assim, não devemos ter medo de algumas vezes, frustrar nossos filhos, mas devemos sim ter consciência de que fazendo todas as vontades, estaremos cultivando sementes de comportamentos indesejáveis e perdendo a oportunidade de exercitar o autocontrole e a resiliência, ingredientes fundamentais para a saúde emocional. O dito popular “colhemos o que plantamos”, em circunstâncias normais de saúde também se aplica à educação.

Portanto, vamos regar nossas “plantinhas” com amor, disciplina e elogios sem afogá-las no exagero de vontades e caprichos!

No próximo artigo falaremos dos últimos princípios da educação positiva; Não usar punição corporal mas consequências lógicas; Ser um modelo moral; e Educar para autonomia.

Para saber mais:

http://www.earlychildhoodaustralia.org.au/feelings_and_behaviours/promoting_positive_behaviours/limits_and_discipline.html

Revista ISTO É “Crianças Estressadas”. 28 de março de 2012, páginas 68-74. Editora
Três.

Lídia Weber, 2005. Eduque com Carinho: Equilíbrio entre amor e limites. Editora Juruá.