05/06/2018

Cidades e Soluções trata da poluição do ar em parceria com Saúde e Sustentabilidade

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O programa Cidades e Soluções do canal Globonews tratou nesta segunda-feira (04-06) sobre o tema da poluição atmosférica, com a parceria do Instituto Saúde e Sustentabilidade. Na Semana Mundial do Meio Ambiente, o destaque advém da atualização recente de dados da Organização Mundial de Saúde, que informou que mais de 9 milhões de pessoas morrem anualmente por problemas de saúde decorrentes do ar contaminado.

No episódio acompanhamos Francisco Rodrigues, morador da cidade de São Paulo,  realizar um trajeto na capital por cerca de cerca de 4 horas utilizando para isso vários modais de transporte. Suas medidas clínicas (pressão arterial, frequência cardíaca e a concentração de monóxido de carbono – CO expirado) foram monitoradas ao mesmo tempo em que acompanhamos os parâmetros ambientais da cidade (temperatura, umidade, ruído e concentração do poluente material particulado 2,5).

A reportagem pontuou sobre a defasagem dos dados de monitoramento da qualidade do ar no Brasil. Admite-se aqui que o material particulado (MP10) – um poluente extremamente nocivo para a saúde, chegue a uma concentração máxima de 150 mcg/m³ em um dia. Por outro lado, A OMS preconiza que esse nível não pode passar de 50 mcg/m³ para que não haja maiores impactos à população. Ou seja, nosso padrão tolera três vezes o valor recomendado e assim é medido pelo órgão ambiental e informado para as pessoas.

TRECHOS

 1: Partida da FMUSP
A: deslocamento da FMUSP até rua Pamplona
 2: Túnel da avenida 9 de Julho
B:  Praça 14Bis, bairro do Bixiga até Radial Leste após viaduto da Liberdade; C: Parada para gravações; D: Avenida Alcântara Machado até fechamento das janelas e ligação ar condicionado
 3: Fechamento das janelas e ligação ar condicionado
E: Avenida Radial Leste até Arena Corinthians; F: Deslocamento até a estação Corinthians – Itaquera; G: Deslocamento na estação Corinthians – Itaquera até plataforma do trem;  H: Deslocamento no trem até parada estação Brás;  I: Deslocamento no trem até estação da Luz; J: Deslocamento interno na estação da Luz; K: Saída da estação da Luz junto a rua Florêncio de Abreu; L: Deslocamento a pé até esquina com rua Senador Queiróz; M: Parada junto ao carrinho de churrasco; N: Deslocamento a pé até Largo de São Bento
4: Chegada ao Largo de São Bento

Durante o percurso de Francisco, o menor nível do poluente MP2,5 identificado foi após a equipe entrar no carro e ligar o ar condicionado (média de 23,8 µg/m3), devido ao efetivo isolamento do interior do veículo em relação à poluição atmosférica externa, mas próximo ao limite máximo estabelecido pela OMS – (25 µg/m3) para picos anuais.

O segundo nível de menor concentração de MP2,5 (média de 91,4 µg/m3), foi registrado durante o trecho de deslocamento utilizando o trem, veículo que opera com sistema de filtragem e condicionamento de ar. Esse valor médio está 265% maior que o limite máximo da OMS, isto é, a exposição de 1 hora nesse valor médio equivale a pouco mais de 3h39 se a exposição estivesse no limite máximo da OMS.

Nos deslocamentos através de caminhada, tanto em ambiente fechado quanto em ambiente aberto, as concentrações médias de MP2,5 estiveram muito próximas (122,3 e 130,0 µg/m3), um pouco menor no ambiente fechado o que traduz o baixo nível de isolamento das construções e também seu afastamento das vias de tráfego. No modal caminhada, a exposição de 1 hora na concentração média obtida equivale a 5h05 no limite máximo da OMS.

A maior média da concentração do MP2,5 foi observada no deslocamento com o veículo com janela aberta (169,4 µg/m3), e onde também se observou a maior variabilidade devido a influência dos fatores externos (túnel, proximidade de avenidas e afastamento das vias de trânsito pesado). Esse valor médio está 580% maior que o limite máximo da OMS, equivalendo a quase 6h41 no limite máximo da OMS.

Os indivíduos mais expostos à poluição do ar são aqueles que permanecem mais tempo no trânsito e em locais com alta concentração de poluentes, como nos pontos de ônibus e os longos trajetos para periferia da cidade nos corredores de ônibus, caracterizando a inequidade ambiental – maior exposição (maior tempo e maior concentração de poluentes) e vulnerabilidade do acometimento em saúde da população com nível socioeconômico inferiores.

De forma inusitada, durante o trajeto, a fumaça no entorno de um carrinho de churrasco elevou a concentração de MP2,5 até 2.200 µg/m3, e a temperatura até 30ºC. A medida de CO exalado do churrasqueiro chegou a 12 ppm, níveis encontrados em indivíduos fumantes. Esta situação ilustra o que ocorre na poluição de ar dentro das moradias (poluição indoor) por uso de fogões a lenha. São responsáveis pela metade do adoecimento e mortalidade associados à poluição do ar no mundo, principalmente em mulheres e crianças que permanecem mais tempo em casa. A poluição indoor está associada a cerca um terço de mortes por AVC (acidente vascular cerebral) em mulheres e por doenças respiratórias em crianças.

A composição de todos os modais utilizados neste experimento (excluído o período próximo ao carrinho de churrasco) resultou em uma média de MP2,5 de 132,7 µg/m3, muito acima do limite máximo recomendado.

Considerando os padrões de qualidade do ar adotados pelo Estado de São Paulo para MP2,5, (correspondente a média diária de 60 µg/m3), desatualizados pelos níveis preconizados pela OMS (correspondente a média diária de 25 µg/m3), o único local do trajeto onde os níveis encontravam-se dentro dos limites foi no final do percurso com janelas fechadas. Diferentemente do que mostraria o Relatório de Qualidade do Ar da Cetesb – com uma régua de limites mais permissivos, a conclusão apontaria muito mais situações dentro do limite normal.

Uma outra situação averiguada durante o percurso foram os relógios da cidade que apontavam que o Índice de Qualidade do Ar (IQAr) da Cetesb como Moderado (cor amarela), pois o índice se baseia nas medições das estações da Cetesb mais próximas daquele local. No entanto, os níveis de concentração do poluente medidos pelo aparelho do experimento são maiores, pois justamente a medida é mais real, dentro de uma via de tráfego, por exemplo.

Significado das cores do Índice de Qualidade do Ar da Cetesb:

Portanto, na realidade, em todo o trajet, os níveis de MP foram altos para a segurança adequada para a saúde, que corresponderiam ao IQAr da Cetesb Ruim, Muito ruim ou Péssima – cores laranja, vermelho e roxa. O cálculo do IQAr da Cetesb baseia-se em uma fórmula que, segundo o órgão, utiliza como parâmetro referencial os padrões de qualidade adotados pela OMS.

O maior nível de ruído ocorreu nas estações do trem, níveis similares ao som de shows de rock.

A temperatura oscilou entre 15,5 oC (no início do trajeto às 9:00) a 26,6 oC na van, logo antes de se fechar as janelas.  Embora os horários colaborem para as medidas de temperatura extremas, outros fatores podem estar associados, como temperaturas mais altas medidas onde havia maior tráfego (Radial Leste) e no centro (Largo São Bento, às 12:30), caracterizado como ilha urbana de calor. O mesmo ocorreu para a umidade, o menor nível nos locais de maior temperatura.

Crianças e idosos possuem menor capacidade de se adaptar a maiores variabilidades de temperatura e umidade.

A maior concentração de CO na expiração ocorreu após o túnel e a parada na Radial Leste, e depois mantendo-se ao nível de 4.

A Pressão Arterial (PA) de Francisco começou a se elevar após o túnel e na parada Radial Leste, a concentração mais alta de MP encontrada durante o trajeto. O aumento da PA se deve, muito provável, à exposição às concentrações maiores de poluente MP – neste caso ultrapassando o limite considerado normal para PA, que requer intervenção ou seja, tratamento (14,5×10).

 

Equipe de pesquisadores:

Prof.Dr.Paulo H.Nascimento Saldiva (IEA/FMUSP)

Profa.Dra.Evangelina Vormittag (ISS)

Eng.Dr.Paulo Afonso de André (Estaplan/FMUSP)

Profa.Dra.Carmen D.S.André (Estaplan/IME)

 

Agradecimentos:

Profa. Maria de Fátima Andrade (IAGUSP) pelo empréstimo do monitor ambiental, e ao Sr.Francisco Rodrigues (voluntário).

 Cofira aqui o relatório completo.

Assinantes Globoplay podem conferir a reportagem completa aqui.